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Ameaças e conservação das aves de rapina do Brasil


Harpia jovem em vôo. Canarana/MT. Foto: Isabel Pellizzer

Texto de: Willian Menq
Publicado em: 1 de junho de 2012.

Os gaviões, águias, falcões e corujas são predadores de topo, possuem populações pequenas e esparsas, necessitam de vastos territórios para sobreviverem e se reproduzirem. É um grupo de fundamental importância na natureza, a conservação de uma única espécie assegura a proteção de toda a comunidade envolvida na teia alimentar. Infelizmente muitas espécies encontram-se ameaçadas de extinção por inúmeros fatores. Será apresentado neste texto as principais ameaças das aves de rapina brasileiras e medidas para conservação.

A Perda e fragmentação dos Habitats
A perda, fragmentação dos habitats ou na transformação deles em áreas para agricultura ou pastagem, são as formas mais comuns de deslocamentos de territórios e redução nas populações de rapinantes. Quando um fragmento é reduzido e isolado, aumentam as chances de extinção das espécies devido às alterações na disponibilidade de alimento, locais para nidificação e no padrão demográfico. A redução de habitat ocasiona também a deterioração genética devido a existência de poucos indivíduos na população da espécie.

Com fragmentos florestais reduzidos, as chances de permanência de aves de rapina mais exigentes em relação ao hábitat são baixas, além da possibilidade de abate por caçadores aumentar expressivamente. E com o avanço da urbanização, a perda e fragmentação dos habitats se tornam mais preocupante em longo prazo. O corte seletivo de madeira causa um impacto sério sobre algumas espécies pela supressão ou alteração do hábitat. A retirada de árvores de grande porte pode significar uma forma de impacto adicional para os falcões-florestais (Micrastur spp) e corujas que nidificam em cavidades de árvores.

Caça e Perseguição
A caça contra qualquer indivíduo de uma população acaba eliminando espécies adultas com território estabelecido e em pleno vigor reprodutivo. A conseqüência disso nas aves de rapina é pouco estudada, mas com certeza leva a um desequilíbrio ecológico considerável, e aliada a fragmentação do ambiente, representa uma grave ameaça às populações naturalmente baixas, como é o caso das águias florestais. Sabemos que as aves de rapina são importantes reguladoras de populações de presas, e um exemplo das possíveis consequências em longo prazo é o declínio populacional dessas aves e uma explosão demográfica de suas presas, como roedores e insetos.

Os motivos que levam as pessoas a perseguirem e abaterem aves de rapina são diversos, variam desde alimentação ao lazer. No interior do Brasil, sabe-se que algumas populações (principalmente comunidades carentes) abatem aves de rapina para alimentação. O desconhecimento sobre a importância deste grupo de aves em seus ambientes é a razão pela qual, muitos gaviões são mortos indiscriminadamente por fazendeiros em decorrência da possível predação de animais domésticos. Esta ação predatória aos animas domésticos está tão disseminada entre a população rural que, mesmo que encontrem estas espécies em áreas distantes, sem representar riscos à sua criação, as abatem com o objetivo de evitar perdas futuras. Há também aqueles que abatem aves de rapina apenas por curiosidade e para exibi-las como troféus.


Jovem Harpia morta em Julho de 2010 no MT por um morador somente porque a mesma tinha atacado um frango velho de sua propriedade.
Foto: Christopher Borges

Águia cinzenta por preferir habitats abertos acaba sendo alvo fácil de abates indiscriminados por parte de alguns fazendeiros e agricultores.
Foto: Mauro Cruz

Harpia adulta que foi baleada por fazendeiro no interior da Bolívia, município de Tame, Rondon. Ferida, foi socorrida pelas autoridades locais
Fonte: Aldiaenpolitica.blogspot


Superstições e crendices populares

Desde a antiguidade, muitas pessoas principalmente as de comunidades carentes são influenciadas pelas tradições folclóricas e diversas lendas que associam algumas aves de rapina, como as corujas, a sinais de azar, morte e criaturas de mau agouro. Com isso, tornam-se ameaças para as aves de rapina. Na verdade o comportamento e as estranhas habilidades das aves de rapina dão margem a tais associações. A educação ambiental torna-se a principal ferramenta para eliminar a disseminação de informações errôneas e prejudiciais das espécies de rapinantes, já que muitas aves de rapina ainda sofrem com as superstições.

Tráfico e captura ilegal
A demanda no mercado ilegal internacional pelas aves silvestres brasileiras é alta, sendo uma ameaça preocupante. Espécies brasileiras são estimadas por colecionadores, criadores ilegais e outros. Além do declínio populacional ocasionado pela retirada das espécies, as aves são transportadas vivas e sofrem maus-tratos, desidratação, fraturas e doenças. Embora as espécies mais frequentemente traficadas sejam papagaios e pequenos pássaros, as aves de rapina podem ser encontradas em algumas feiras livres pelo país. Outra prática muito comum especialmente no interior do país é a de pessoas que coletam filhotes de aves de rapina no ninho e criam o que é totalmente condenável e ilegal.


Corujinha-do-mato captura ilegalmente por morador no interior do Paraná.Foto: Willian Menq

A suindara é muitas vezes perseguida devido aos mitos que a cercam. Foto: Juniors Bildarchiv

Falcões peregrinos mortos, envenenados com pesticida proibido na Europa. Foto: RSPB/PA

Envenenamentos
O uso excessivo de agrotóxicos, metais pesados e outros elementos químicos maléficos, acabam poluindo a vegetação na qual serve de alimento para insetos, roedores e aves granívoras. Esses animais que consomem os alimentos poluídos servem de alimento para a maioria das aves de rapina. Os gaviões, águias e corujas acabam por acumular todos os produtos poluentes de suas presas. Com isso, são atingidos pela biomagnificação de poluentes, tais como agrotóxicos, PCB's, metais pesados e outros. Os efeitos da biomagnificação nas aves de rapina são variados, em altas concentrações leva a morte do indivíduo, podendo também prejudicar a reprodução da espécie e causar declínios populacionais. Não existe informações sobre a contaminação de aves por agrotóxicos no Brasil, mas considerando a utilização dos organoclorados ilegais provenientes do Paraguai e de outros países na agricultura brasileira, pode-se considerar a possibilidade de síndromes e mortes se manifestar.

Colisões com estruturas antrópicas
Os acidentes com estruturas artificiais são uma ameaça adicional aos rapinantes. As vidraças que refletem o céu, atropelamento em estradas, pás de geradores eólicos, fios de cerca, linhas de pipa com cerol são obstáculos comuns que dificultam e confundem as aves de rapina. Casos de morte de rapinantes com obstáculos antrópicos são mais comuns do que se imagina, o que representam ameaças importantes. Nos aeroportos, colisões com aeronaves também são relevantes para a mortalidade de aves de rapina, apesar de estarem sujeitas ao monitoramento devido ao risco de acidentes.

As usinas eólicas localizadas em rota de migração de aves, geradores pouco espaçados entre si e com alta velocidade podem vir a ser um obstáculo perigoso e as vezes mortal para as aves de rapina. O atropelamento é uma das causas de mortalidade mais conhecidas e estudadas. Corujas e gaviões costumam pousar sobre as estradas para capturar insetos e acabam sendo atropelados. Nas estradas que cortam florestas, as aves costumam transitar de um fragmento para o outro podendo ser atingidas por veículos. Por isso é importante respeitar a sinalização de trânsito nas estradas, andando na velocidade recomendada nas áreas de proteção certamente poderá poupar a vida de alguns animais. Nas áreas rurais os fios de cerca, muito finos, acabam não sendo percebidos por alguns gaviões em seus vôos rasantes, ocasionando colisões, lesões e às vezes morte de indivíduos.


Águia-cobreira morta devido a colisão com pá de um aerogerador em usina eólica. Foto: Sekano.net

Caburé-acanelado, espécie de coruja muito rara, atropelada na BR-280 no Paraná. Foto: Raphael E. F. Santos

Gavião-de-cauda-curta encontrado morto, atropelado na BR 116
Foto: Cezar Moreira Paes

Eletrocussão
Os fios de alta tensão são poleiros atrativos para as aves de rapina, é extremamente comum ver gaviões e falcões pousados nestes fios ao longo das rodovias espreitando sua presa. Tais estruturas podem ser fatais para espécies maiores que conseguem tocar dois fios ao mesmo tempo como é o caso da águia-cinzenta, águia-chilena e alguns gaviões. Esses acidentes muitas vezes são pouco percebidos, já que as carcaças são consumidas rapidamente pelos urubus ou ficam escondidas na vegetação. As rapineiras eletrocutadas em linhas de transmissão ao longo das estradas quando caem podem ser confundidas com animais atropelados, o que acaba subestimando os acidentes deste tipo.

Medidas para preservação
A conservação das aves de rapina depende de um esforço conjunto da comunidade, pois diferentes formas de impacto contribuem para o declínio das espécies. As medidas mais importantes e urgentes para preservar às aves de rapina consistem na proteção de seu hábitat, conservando os remanescentes de florestas para as espécies florestais e criação de novas unidades de conservação. Além disso, criar a conectividade entre as áreas preservadas permitiria também a permuta gênica entre populações anteriormente isoladas, assim como a colonização espontânea de locais onde eventualmente tenha se extinguido. Além da criação e operacionalização de áreas preservadas, o aumento da fiscalização também é crucial para garantir a conservação dos ambientes naturais e dos animais que neles vivem.

Tão importante quanto a proteção dos habitats existentes é o incentivo a novos estudos científicos com as aves de rapina. O desenvolvimento de estudos voltados à biologia e ecologia das espécies e a busca de novas populações permitiriam inferir na distribuição e conservação de muitas aves de rapina. Projetos de manejo e reintrodução também são de fundamental importância para salvar populações e até mesmo povoar áreas onde algumas espécies já foram extintas. Já a educação ambiental está entre os instrumentos mais importantes e efetivos para promover a conservação das aves e da natureza. O site Aves de Rapina Brasil é também um agente educador que busca, através das publicações no site, artigos, palestras, divulgar e sensibilizar as pessoas sobre a importância das aves de rapina, sua história natural e apresentar as espécies de nosso país. Acredito que a divulgação científica seja ainda uma ferramenta poderosa para conscientizar e promover a conservação das espécies, afinal: não há conservação sem conhecimento!


Pesquisa sobre aves de rapina diurnas no noroeste do Paraná.
Foto: RPC-TV

Muitas espécies, como as corujas possuem sua biologia pouco conhecida. Foto: Willian Menq

Palestra sobre aves de rapina no 7º Avistar, São Paulo/PR.
Foto: Juliana Oliveira