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Gavião-de-cauda-curta
(Buteo brachyurus)

Buteo brachyurus (Vieillot, 1816)
Ordem: Accipitriformes
Família: Accipitridae
Grupo:
Gaviões
Nome popular: gavião-de-cauda-curta

Nome em inglês: Short-taided-hawk
Tamanho: 37-46 cm de comprimento
Habitat:
Florestas, borda de matas
Alimentação:
Aves e pequenos animais


Distribuição no Brasil:



Status: (LC) Baixo risco


Indivíduo adulto. Porto Alegre/RS, Maio de 2010.
Foto:
André Andrade


Vocalização de chamado (C) - (gravado por: Sidnei de Melo)

• Descrição: Atinge de 37 a 46 cm de comprimento, os machos pesam de 450-470 g e as fêmeas 425-530 g (Marquez et al, 2005; del Hoyo et al. 1994). Esta espécie possui uma cauda barrada, partes inferiores branco-puras e partes superiores e lados da cabeça pretos no adulto e pardos nos indivíduos jovens (Sick, 1997). Existe indivíduos da espécie que possuem melanismo, ou seja, uma plumagem escura quase negra devido ao excesso de pigmentação. Os indivíduos melânicos (morfo escuro) tem plumagem escura, quase negra, com as secundárias mais escuras do que as primárias (Marquez et al, 2005; del Hoyo et al. 1994). Imaturos melânicos, especialmente a subspécie B. b. fuliginosus, apresentam considerável variação na plumagem, que tanto pode ser salpitada de branco, quanto completamente escura como nos adultos. A denominação brachyurus significa: cauda curta; “brachy” (latim) é curto, achatado, enquanto que “uros” é cauda (Márquez et al, 2005). Conhecido também como gavião-de-rabadilha-branca. Apesar de seu nome popular "cauda-curta", sua cauda não é significativamente menor em relação ao corpo se comparada com espécies do mesmo gênero.


Prancha do gavião-de-cauda-branca. Arte: Willian Menq

Há poucas informações sobre a plumagem de imaturos morfo escuro provenientes da América do Sul, pois a maior parte dos dados disponíveis baseia-se na subespécie B. b. fuliginosus, da América do Norte e Central (Rand, 1960; Wheeler, 2003). Nela, imaturos morfo escuro apresentam considerável variação na plumagem, que tanto pode ser salpitada de branco, quanto completamente escura como nos adultos (Wheeler, 2003). Não é possível afirmar se o mesmo acontece na subespécie sulamericana B. b. brachyurus; Monsalvo, durante um estudo em andamento em São Paulo (com. pess., 2011), monitorou um imaturo de coloração escura uniforme – tipo considerado raro na América do Norte. O padrão e quantidade de barras na cauda também é variável nas aves dos EUA, especialmente em imaturos (Wheeler, 2003), e existem evidências que o mesmo possa ocorrer no Brasil (Monsalvo, obs. pess.). Além disso, os imaturos podem apresentar a cauda um pouco mais longa que a dos adultos (Wheeler, 2003).

• Espécies similares: Indivíduos adultos são parecidos com o gavião-de-cauda-branca (Buteo albicaudatus) e com o gavião-de-dorso-vermelho (Buteo polyosoma) sendo a diferença mais notável a cauda, que nesta espécie é toda barrada. O gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) também é similar, porém a B. swainsoni possui o dorso amarronzado com região gular e baixo ventre brancos e peito castanho ou amarelado. O gavião-de-cauda-curta também pode ser confundido com o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) em vôo. Os indivíduos melânicos (morfo escuros) são parecidos com o gavião-urubu (Buteo albonotatus), gavião-de-asa-larga melânico (Buteo platypterus), gavião-de-cauda-branca melânico e gavião-preto (Buteogallus urubitinga), sendo a principal diferença dele com estes o padrão da cauda e das asas. Além disso, os indivíduos morfo escuro tem silhueta muito semelhante à do urubu-de-cabeca-preta (Coragyps atratus) podendo ser confundido com eles, como já relatado por Roesler (2003).

• Alimentação: Estudos mais antigos sobre a dieta desta espécie, relatam uma alimentação variada, principalmente de invertebrados como gafanhotos, percevejos, formigas, vespas, cupins e aranhas. Insetos voadores são capturados com as patas e geralmente devorados em vôo; caçam também répteis, anfíbios, pequenas aves e roedores (del Hoyo et al, 2004; Sick, 1997). Segundo Ogden (1974) este gavião é um predador especializado em aves, mostrando adaptações tanto morfológicas quanto comportamentais para a captura desse tipo de presa.

A maioria dos datos sobre alimentação dessa espécie são de dados provenientes da Flórida - EUA, lá a a principal dieta desta espécie são aves pequenas (96,3 %) inclusive casos de predação contra Falco sparverius e Accipiter striatus, roedores (3 %), e ocasionalmente lagartos e insetos (del Hoyo et al. 1994). Essa dieta ornitófaga possibilita sua existência em plena metrópole, como na cidade de São Paulo por exemplo onde capturam pequenas aves em voo ou quando estão pousadas no topo de árvores (Monsalvo, 2010). Christianini (2005) registrou a predação de B. brachyurus sobre Crypturellus parvirostris (Inhambu-chororó) em um fragmento de floresta semidecídua no município de Gália-SP, no sul da distribuição deste gavião. Este é provavelmente o registro da maior ave já capturada por esta espécie.


Indivíduo adulto alimentando-se de uma ave. Joinville/SC. Setembro de 2009 Foto: Marcos Piske

Indivíduo adulto.
Nova Boa Vista/RS, Dez. 2010.
Foto:
Juan Anza

Indivíduo jovem alimentando-se. Ilhabela/SP, Setembro de 2008.
Foto:
Marcelo Dutra

• Reprodução: No período de reprodução o macho realiza vôos nupciais, são vôos circulares seguido de descidas repentinas. Durante o acasalamento emitem seus gritos, sendo geralmente compostos de assobios finos. Constroem o ninho com ramos e gravetos com um cerca de 70cm de diâmetro, em árvores a uma altura que varia de 2 a a 30 metros (del Hoyo et al. 1994). A fêmea realiza a postura de 2 ovos que geralmente apenas um desenvolve, o filhote mais velho elimina o mais novo, a competição começa desde o ninho (Newton, 1977). Os ovos são manchados e tem coloração variada, tem um perido média de incubação de 34 dias. Os filhotes ficam dependente dos pais por aproximadamente 6 meses e se tornam adultos com 2-3 anos de idade (Marquez et al, 2005; Ferguson-Lees e Christie, 2001; del Hoyo et al, 2004; Newton, 1977).

Na capital de São Paulo, Monsalvo (2010) acompanhou um casal com plumagem Dark morph (melânico) se reproduzindo em um parque urbano da cidade desde 2008. O ninho estava localizado ao lado de uma via movimentada. Duas semanas pós o primeiro vôo, a filhote já havia abandonado definitivamente o ninho, mas ainda passava a maior parte do dia pousada em uma árvore a cerca de 50m dali, vocalizando constantemente, e seus voos se limitavam a um raio de 100m do ninho. Nesses voos às vezes acompanhava a mãe, e já tentava imitar suas manobras, como rasantes na copa das árvores. Também nessa fase, foi observada pela primeira vez a transferência de presa do macho (único responsável pela alimentação da família) para a filhote em pleno ar. O macho parava no ar, vocalizando e mantendo a posição apenas com sutis movimentos das asas e cauda, com a presa nas garras. Quando a filhote se aproximava voando por baixo, o pai soltava a presa e a filhote a agarrava durante a queda. No decorrer das semanas, o filhote vocalizava cada vez menos, e dedicava cada vez mais tempo a desenvolver atividades de caça. No entanto, até os 3 meses de idade ainda não fôra observada capturando nenhuma presa, ainda se mantendo a menos de 300m do ninho até os 4 meses de idade, quando deixou a área (Monsalvo, 2010). Mais sobre reprodução...

• Distribuição Geográfica: Presente desde o sul dos Estados Unidos (Flórida) e México até a Argentina e Paraguai, e em todo o Brasil (del Hoyo et al, 2004). Sabe-se que as populações setentrionais são migratórias e algumas populações da Flórida (EUA) podem migrar até Cuba, mas os movimentos migratórios da espécie ainda foi pouco estudado e é mal documentado (GRIN, 2010), no Brasil é considerado pelo CBRO (2011) como uma espécie residente.

• Subspécies: São reconhecidas ao todo duas subspécies do Gavião-de-cauda-curta, são elas: Buteo brachyurus fuliginosus: ocorre do sul da Flórida (Estados Unidos), leste do México até o Panamá. Buteo brachyurus brachyurus: Colombia, oeste do Equador, Guianas, Peru, Bolívia Paraguai e por todo o Brasil até o norte da Argentina (Jujuy, Tucumán, Misiones) (Blake 1977; Marquez et al, 2005; del Hoyo et al. 1994).

• Hábitos/Informações gerais: É um dos mais acrobáticos gaviões do gênero Buteo voa com um falcão realizando vôos picados espetaculares sobre o dossel da mata, às vezes próximo a copa das árvores onde costuma capturar as aves que posteriormente despluma no ar (Márquez et al, 2005). Vive nas bordas de florestas. Pode ser observado voando sobre a floresta e próximo a áreas urbanas. É incomum, habitando campos com árvores e áreas florestadas permeadas de vegetação aberta. Vive normalmente sozinho, ocasionalmente aos pares. Geralmente observado bem alto em vôos circulares, às vezes em meio a bandos de urubus-de-cabeça-preta. As fêmeas como a maioria dos gaviões são maiores que os machos (Sick, 1997; del Hoyo et al, 2004).

Estudos tem revelado que esta espécie parece ser relativamente comum, ao contrário do que se supunha (Belton, 1984; Roesler, 2003; Monsalvo, 2010). Um dos motivos pelos quais ela tende a passar despercebida é o fato de passar a maior parte do tempo planando a grande altitude (Wheeler, 2003). Em diversas regiões onde foram melhor estudados, nos EUA, Argentina e Brasil, os indivíduos melânicos (morfo escuro) mostrou ser a forma mais abundante (Wheeler, 2003; Roesler, 2003; Silva e Silva & Olmos, 2007; Monsalvo, 2010). Paralelamente, estudos sobre a reprodução da espécie demonstraram, através das combinações de plumagem entre adultos e crias observadas, que esta forma é geneticamente dominante ao morfo claro, tanto na Flórida/EUA (Meyer, 2004) quanto em São Paulo (Monsalvo, 2010). Possivelmente, o mesmo pode se aplicar ao restante de sua área de ocorrência; essa predominância do morfo escuro seria outra causa desta espécie passar despercebida, já que indivíduos melânicos facilmente se passam por Coragyps atratus (Roesler, 2003). Talvez essa semelhança se deva à mesma espécie de mimetismo de Buteo albonotatus em relação à Cathartes aura demonstrado por Willis (1963;1966) (Monsalvo, 2010).


Indivíduo jovem (melânico). Serra do Japi - Jundiaí/SP, Maio de 2011. Foto: Roberto Gallacci

Indivíduo adulto (melânico). Nepomuceno/MG, Novembro de 2010. Foto: Zé Edu Camargo

Indivíduo adulto (melânico). P.E. da Serra da Tiririca, Niterói-RJ.
Foto:
Igor Camacho


Indivíduo jovem. Estação Ecológica Raso da Catarina. Julho de 2008. Foto: Pedro Figueiredo

Indivíduo adulto.
Porto Alegre/RS, Maio de 2010.
Foto:
André Andrade

Indivíduo jovem. Santana de Parnaíba/SP, Maio de 2009.
Foto:
Jean Santos


Indivíduo jovem pousado.
Irati/PR, Abril de 2011.
Foto:
Michel Kengerski

Indivíduo Jovem em voo.
Goiânia/GO, Maio de 2009.
Foto:
Wagner Machado C Lemes

Indivíduo jovem. Estação Ecológica Raso da Catarina. Julho de 2008. Foto: Pedro Figueiredo

 


:: Página editada por: Willian Menq em 2011. ::



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• Referências:

Belton, W. (1984) Birds of Rio Grande do Sul, Brazil. Part 1. Rheidae through Furnariidae. Bulletin of the American Museum of Natural History 178:369-636.

Blake, E. R. (1977) Manual of Neotropical Birds. The University of Chicago Press. Chicago and London. 674 páginas.

CBRO - Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (2011) Listas das aves do Brasil. 10 ª Edição, 25/01/2011, Disponível em <http://www.cbro.org.br>. Acesso em: Janeiro de 2011.

Christianini, A. V. (2005) Afeeding record of the Short-tailed Hawk Buteo brachyurus in its southern range. Revista Brasileira de Ornitologia 13 (2):191-192.

Cottam, C. e Knappen, P. (1939) Food of some uncommon North American birds. Auk 56:138-169.

del Hoyo, J. e Sargatal, J. (2004) Handbook of the birds of the world v. 9. Barcelona: Lynx Edicions

Ferguson-Lees, J. e D. A. Christie (2001) Raptors of the World. New York: Houghton Mifflin Company.

GRIN - Global Raptor Information Network. 2010. Species account: Short-tailed Hawk Buteo brachyurus. Downloaded from http://www.globalraptors.org on 18 Jan. 2011

Jaksic, F. M. (1985) Toward raptor community ecology: behavior bases of assemblage strucuture. Raptor Research 19:107-112.

Márquez, C., Gast, F., Vanegas, V. & M. Bechard. (2005) Aves Rapaces Diurnas de Colombia. Bogotá: Instituto de Investigación de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt. 394 p.

Newton, I. (1977) Breeding strategies in birds of prey. Living BIRD, v. 16. p.51- 82.

Monsalvo, J. A. B. (2010) Observações pessoais sobre a reprodução do Buteo brachyurus em um parque urbano de São Paulo-SP. São Paulo - SP.

Meyer, K.D. (2004) Breeding and wintering ecology of the Short-tailed Hawk (Buteo brachyurus) in Florida. Final report. Florida Fish and Wildlife Conservation Commission, Tallahassee, FL.

Ogden, J.C. (1974) The Short-tailed Hawk in Florida. I. Migration, hunting techniques, and food habits. Auk 91:95-110.

Rand, A.L. (1960) Races of the Short-tailed Hawk, Buteo brachyurus. Auk 121:650-659.

Roesler, I. (2003) El aguilucho cola corta (Buteo brachyurus) en la región chaqueña argentina. Hornero 18:123-126.

Sick, H. (1997). Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Silva e Silva, R. e Olmos, F. (2007) Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão, SP. Revista Brasileira de Ornitologia 15 (4): 551-560.

Wheeler, B.K. (2003) Raptors of eastern North America. Princeton University Press, Princeton, NJ. 439 pp.

Willis, E. (1963) Is the Zone-tailed Hawk a mimic of the Turkey Vulture? Condor 68:104-105.


• Site associado:
Global Raptor Information Network (em inglês)