Aves de Rapina do Brasil:
Principais ameaças e medidas para conservação

Jovem Harpia morta em Julho de 2010 no Mato Grosso por um "morador" somente porque a mesma tinha consumido um frango velho de sua propriedade. Cena lamentável, pura "ignorância humana".
Foto: Christopher Borges
Texto de: Willian Menq 
A avifauna brasileira é sem dúvida fantástica, composta pelas mais variadas aves com suas diversas formas e cores. Porém, muitas dessas espécies sofrem diversas ameaças. As aves de rapina, por exemplo, correm sérios riscos de extinção por inúmeros fatores, algumas são endêmicas como é o caso do gavião-pombo-pequeno (Leucopternis lacernulata) e outras com densidades populacionais desconhecidas, como é o caso de algumas corujas. Será apresentada aqui, as principais ameaças das aves rapineiras no país e também algumas medidas para preservação.
A Perda e fragmentação dos Habitats:
Certamente, a perda, fragmentação e a degradação dos habitats sejam os fatores mais importantes e consideráveis nas extinções regionais de populações de aves de rapina no Brasil. A redução do habitat em fragmentos florestais ou na trasnformação deles em áreas para agricultura ou pastagem, são as formas mais comuns da redução nas populações de rapineiros. De acordo com Wiens (1989), quando a área de um ambiente é reduzida e isolada, aumenta a probabilidade de que populações locais sofram extinções devido às alterações na disponibilidade de recursos, no padrão demográfico e até na estrutura genética.
Espécies como a harpia, necessitam de grandes territórios para obter alimento e se reproduzir, sendo que só na floresta amazônica elas possuem ainda populações consideráveis, fora dela, pela falta de remanescentes florestais as populações desta águia tende a declinar, no Rio Grande do Sul já é considerada extinta. Outro fator que os grandes gaviões sofrem com a fragmentação dos habitats é a deterioração genética em virtude da existência de poucos indivíduos nas áreas onde ainda ocorrem. Espécies como o gavião de penacho (Spizaetus ornatus), gavião-real-falso (Morphnus guianensis) são aves florestais que assim como a harpia necessitam de grandes extensões de florestas bem preservadas para obter seu alimento e se reproduzir, sendo essas exigências cada vez mais difícil em decorrência das ações antrópicas.
Caça e Perseguição:
Outra ameça as espécies é a caça ilegal e perseguição. A caça indiscriminada contra qualquer indivíduo de uma população, acaba eliminando espécies adultas com território estabelecido e em pleno vigor reprodutivo. A consequência disso nas aves de rapina é pouco estudada, mas com certeza leva a um desequilibrio ecológico considerável, e aliada a fragmentação do ambiente, representa uma grave ameaça às densidades populacionais naturalmente baixas, como é o caso dos grandes gaviões florestais. Sabemos que as aves de rapina são importantes reguladoras de populações de presas, e um exemplo das possiveis consequências a longo prazo é o declínio populacional dessas aves e uma explosão demográfica de roedores e insetos.

A esquerda, imagem de uma Harpia morta por fazendeiros, a direita uma coruja-do-mato em uma gaiola.
A águia-cinzenta Harpyhaliaetus coronatus, espécie muito rara e ameaçada no Brasil sofre muito com a caça indiscriminada, é uma ave de porte avantajado (75 - 85 cm), que precisa de presas grandes e significativas áreas para constituir territórios de alimentação e reprodução. Mas pelo fato de preferir hábitats abertos, como por exemplo os campos naturais, acaba se tornando alvo fácil de caça, já que é considerada prejudicial à criação de certos animais domésticos. A Instituição SOS Falconiformes em seus trabalhos de campo, já relataram casos de caçadas realizadas por fazendeiros contra espécies de grande porte, como por exemplo o gavião-pato S. melanoleucus e o gavião-de-penacho S. ornatus. Em muitas regiões interorianas do Brasil, sabe-se que algumas pessoas (principalmente comunidades carentes) abatem aves de rapina para a alimentação. Mas na maioria das vezes, os abates contra as aves rapineiras é por motivos de lazer, exibição de troféus, ou mesmo por superstições.
Tráfico e comércio ilegal:
O tráfico contra à fauna silvestre brasileira ocorre devido a demanda do mercado ilegal internacional. Muitos colecionadores e criadores ilegais de vários países cobiçam muitas de nossas espécies, principalmente às aves do Brasil. Além do declínio populacional ocasionado pela retirada das espécies, e maus-tratos e acondicionamento imprópio que esses animais sofrem, o trasporte e manipulação ilegal de aves silvestres podem criar oportunidades de transmissão de patógenos para populações naturais saudáveis. Embora a maioria das aves traficadas sejam Papagaios e passarinhos diversos, às aves de rapina podem ser encontradas à venda em feiras pelo país, alem de algumas espécies serem cobiçadas por falcoeiros ilegais de outros países.
Superstições e crendices populares:
Aves de rapina em especial, às corujas, na maioria das vezes são vistas pela população como animais de mau agouro. São pessoas de comunidades carentes em áreas rurais e urbanas que são influenciadas pelas tradições folclóricas e diversas lendas, com isso tornam-se ameaças para as aves silvestres. Se tratando de gaviões, algumas espécies como o acauã (Herpetotheres cachinnans) que possui vocalizações conspícuas de tom grave que se propagam a grandes distâncias, é interpretado como sinal de morte eminente. A educação ambiental torna-se a principal ferramenta para eliminar a disseminação de informações errôneas e prejudiciais das espécies de rapinantes, já que muitas aves de rapina, como as corujas, sofrem com as superstições.
Envenenamentos:
O uso excessivo de agrotóxicos, metais pesados e outros elementos químicos maléficos, acaba poluindo muitas vezes a vegetação/lavoura na qual serve de alimento para insetos, roedores e aves granívoras. Esses animais que consomem alimentos poluidos servem de alimento para a maioria das aves de rapina. Os gaviões, águias e corujas, são predadores do topo da cadeia, alimentando-se de consumidores de diversas ordens, acabam por acumular todos os produtos poluentes de suas presas. Com isso, são atingidos pela biomagnificação de poluentes, tais como agrotóxicos, PCB's,metais pesados e outros. Os estudos sobre os efeitos no meio ambiente dos pesticidas atualmente usados na agricultura são escassos, sendo as informações disponíveis geralmente extrapoladas de estudos realizados em outros países.

Coruja atropelada na rodovia. Foto: Willian Menq Peabiru - PR
Colisões e Atropelamentos:
É comum os acidentes de colisões das aves de rapina com estruturas antrópicas. Vidraças e janelas que refletem o céu, pás de geradores eólicos, fios finos de cerca, linhas de pipa com cerol são obstáculos comuns que dificultam e confundem muitos rapineiros, tambem representam ameaças importantes. Os Fios de alta tensão são posicionados no alto tornando-se poleiros atrativospara as aves e constituindo-se em armadilha fatal para espécies de tamanho grande como algumas águias brasileiras. Esses acidentes são pouco percebidos, já que as carcaças são consumidas pelos urubus da região ou ficam escondidas na vegetação. O Atropelamento é uma das causas de mortalidade mais estudadas e frequentes. Algumas espécies de corujas e gaviões costumam pousar sobre as estradas para capturar insetos e acabam sendo atropelados, ou as vezes quando passam voando a baixa altura na rodovia são atingidos por veículos.
A preservação das espécies:
As medidas mais importantes e urgentes para preservar às aves de rapina consistem na proteção de seu hábitat, conservando os remanescentes de florestas para as espécies florestais, na criação de novas unidades de conservação, e também ampliar as UC's já existentes. Seriam medidas louváveis para a conservação, não só exclusivamente das aves de rapina, mas de muitos outros animais e plantas que dependem dessa fitofisionomia. A conectividade entre essas áreas das UC's permitirua também a permuta gênica entre populações anteriormente isoladas, assim como a colonização espontânea de locais onde eventualmente tenha se extinguido. Tal conectividade seria possivel se todos os rios, tivessem sua mata ciliar conservada.

Educação Ambiental: a esquerda, minicurso de identificação de aves de rapina ministrado pelo ornitólogo Jorge Albuquerque de SC. A direita palestra sobre ecologia das aves de rapina ministrada por Willian Menq para alunos do ens. médio.
O desenvolvimento de estudos voltados à biologia e ecologia das espécies e a busca intensiva de novas populações permitiriam inferir na distribuição e conservação de muitas aves e diagnosticar com maior precisão outras informações relevantes. Aos poucos tais estudos vem sendo realizados pelos pesquisadores Brasileiros. Estudos sobre a biologia reprodutiva de algumas espécies raras no sul Brasileiro, conduzidos por D. Kajiwara, J. L. B. Albuquerque e L. G. Trainini na região de Urubici, Santa Catarina, permitiu diagnosticar com maior precisão as ameaças e medidas para a conservação das aves de rapina daquela região.
Entre outras ações, além da criação e operacionalização de áreas preservadas, o aumento da fiscalização também é crucial para garantir a conservação dos ambientes naturais e dos animais que neles vivem. A educação ambiental, está entre os instrumentos mais importantes e efetivos para promover a conservação da natureza, e este é um dos objetivos do portal Ave de Rapina Brasil: divulgar através do site, a história natural das aves de rapina do território brasileiro e seus respectivos habitats, para além de informar, conscientizar o público sobre tais aves, pois afinal: Não há conservação sem conhecimento!

Alta Floresta/MT, Junho de 2009. Foto: Rudimar Cipriani
Publicado em: 29 de Maio de 2010.
