As Aves de Rapina Migratórias

Falcão peregrino em voo, Salvador/BA. Foto: Pedro Figueiredo
Texto de: Willian Menq 
A migração das aves é um dos fenômenos mais fascinantes e menos compreendidos da natureza. Muitas aves migram mesmo quando ainda existem recursos suficientes para sua sobrevivência, as aves não têm como saber que passado algumas semanas a temperatura irá diminuir e o alimento se escassear. Os fatores que desencadeiam a migração não são de fácil explicação existindo várias teorias. Sabe-se apenas que a duração do dia, a direção do vento e mudanças hormonais desempenham papel importante no instinto migratório. Como os migrantes encontram com exatidão o caminho para seus habitats temporários também é uma incógnita. Alguns estudos sugerem que as aves usam o sol e as estrelas para navegar, contando também com detalhes da paisagem. Acredita-se ainda que algumas aves sigam os campos magnéticos da Terra, o que os ajudaria a se orientar em paisagens monótonas e em alto mar.
Dentre as espécies que visitam o Brasil, destacam-se aquelas que migram com a proximidade do inverno boreal. Elas apresentam extraordinária capacidade de percorrer longas distâncias, o falcão peregrino, por exemplo, na sua viagem migratória, chega a percorrer mais de 22 mil quilômetros. No período de inverno, a baixa oferta de recursos alimentares aliada a fatores endógenos, induz a migração de várias espécies dos Hemisférios Norte e Sul aos sítios de alimentação ou áreas de invernada em países vizinhos ou outros continentes. Nestas áreas permanecem até o início da primavera em seu local de origem, para onde retornam e se reproduzem. Estudos têm mostrado que várias espécies de aves migratórias são fiéis às áreas de invernada, retornando ao mesmo local todos os anos.
Dentre as aves de rapina, o Brasil conta com algumas espécies migratórias: o condor-dos-andes (Vultur gryphus); águia-pescadora (Pandion haliaetus), gavião-tesoura (Elanoides forficatus), gavião-do-mississippi (Ictia mississippiensis), gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus), gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni), esmerilhão (Falco columbarius) e o falcão-peregrino (falco peregrinus). Existem também as espécies que realizam migrações de curta distância como o sovi (Ictinia plumbea) e o gavião-bombachinha-pequeno (Harpagus diodon).

Bando de dezenas de individuos de gaviões-do-mississippi (Ictinia mississippiensis) de manha numa área aberta próx. a Fazenda Curruira das Araras- Jangada/MT. Agosto 2005.
Foto: Juan Mazar-Barnett
Sick (1997) aponta que o condor-dos-andes (Vultur gryphus) habitante das Cordilheiras dos Andes, tenha algumas migrações sazonais a partir de sua distribuição para o oriente, penetrando por vezes em território brasileiro (já foi registrado em algumas regiões no Mato Grosso e no oeste do Paraná). O gavião-do-mississippi (Ictinia mississippiensis), originário da América do Norte, a partir do mês de agosto começa seus movimentos migratórios para o sul, cruzando a América Central e usando a região central da América do Sul como rota migratória, para chegar no Paraguai e norte da Argentina, por vezes atingindo o Brasil (região norte e centro-oeste) e a Bolívia. São gaviões sociáveis, migram em grupo de centenas de indivíduos. A coruja-dos-banhados (Asio flammeus) de acordo com Sick (1997) é uma espécie que realiza migrações, comunente vista em areas campestres. É uma coruja cosmopolita, no hemisfério norte pesquisadores indicam migrações norte/sul e oeste/sudoeste da raça A. f. flammeus, sendo que a população brasileira (A. f. suinda) não apresenta indícios, mas é pouco estudada quanto à migração.
A águia-pescadora (Pandion haliaetus), natural do hemisfério norte, onde se reproduz, migra para a América do Sul durante o inverno, atingindo países como Brasil até o Chile e Argentina. Em nosso país há registros dela em praticamente todos os Estados, sendo mais rara no sul. Normalmente é avistada em regiões com grandes extensões de água onde caça seu principal alimento: os peixes. Chega no Brasil em média no mês de outubro (pode variar dependendo da região do país) e retorna no fim de março até o inicio de Abril. Apesar disso, ela já foi registrada em todos os meses do ano, provavelmente eram indivíduos jovens que não tinham atingido à maturação sexual (leva de 2 a 3 anos para se tornarem adultas).
O gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) no verão habita os EUA, México e países da América Central, no inverno migra para o sul do México até os países da América do Sul, não são todas as populações dessa espécie que migra, sabe-se de algumas populações no Caribe que são residentes. Esse gavião conta com poucos registros no Brasil, atinge as regiões norte e centro-oeste, conta com registros no noroeste do Amazonas; sudoeste do Mato Grosso e nos arredores de Manaus e Rondônia. O gavião-papa-gafanhoto (Buteo swainsoni) migra durante o inverno boreal entre outubro e março para o nosso verão na América do Sul, do sul do Trópico de Capricórnio até a Argentina. Pode aparecer em qualquer parte do Brasil como vagante em sua rota migratória, havendo predominância de indivíduos com plumagem juvenil.
Sovi (Ictinia plumbea) em vôo. Canteiro de Obras UHE - Mauá - Telêmaco Borba/PR.
Foto: Luciana Chiyo |
Gavião tesoura (Elanoides forficatus) em Vôo. Rio Machado RO, Foto: Guto Carvalho |
O sovi (Ictinia plumbea) é migratório no Pantanal, sul e sudeste do Brasil, com uma população residente na Amazônia, por onde passam os migrantes em seu movimento para o norte, em abril, ou no seu retorno, em agosto. Reproduz-se no Pantanal, no sul/ sudeste e na Amazônia. São espécies bem territorialistas nos sítios reprodutivos, afugentando qualquer ave de rapina que passa próximo ao local. O gavião-tesoura (Elanoides forficatus) ocorre em todo o Brasil, existem duas populações dessa espécie uma se reproduz no sul do Brasil e a outra, ameaçada de extinção, na América Central e sul dos EUA. ambas passam seus invernos na floresta amazônica. O esmerilhão (Falco columbarius) é um falcão oriundo da América do Norte e do Velho Mundo, realiza migrações para o norte do Peru e Venezuela, no Brasil foi pouco registrado, contando com registros apenas na costa da Bahia e no Amazonas.
O falcão-peregrino (Falco peregrinus) é a espécie mais conhecida entre as aves de rapina migratórias. Eles migram da América do Norte atingindo até o extremo sul da América do Sul e todo ano vão para os mesmos pontos de invernagem, sendo bem fiéis ao local. No Brasil conta com registros em praticamente todos os estados. Na maioria dos registros, o falcão peregrino é visto em centros urbanos, pois as grandes cidades abrigam grande oferta de presas e poucos competidores. No continente americano ocorrem quatro subespécies, das quais duas chegam ao Brasil durante movimentos migratórios: F. p. tundrius, mais ártica e o F. p. anatum. O tundrius é a subespécie menor, que vive nas regiões mais setentrionais da América do Norte. É a subespécie norte-americana que mais responde aos estímulos migratórios com deslocamentos de longa distância. O anatum tem uma distribuição mais ampla, abrangendo áreas de amplitudes térmicas variáveis e menos extremas, e dado a isso, nem todos chegam a se deslocar tanto do seu ponto de origem, mas os que se deslocam mais chegam a atingir os países sul-americanos. Acredita-se que o Falco p. cassini chegue ao sul do país, devido a registros da espécie no Uruguai.
O gavião-bombachinha-pequeno (Harpagus diodon) provavelmente realiza curtas migrações, Em Santa Catarina, registros de museu e recentes tendem a sugerir uma ocorrência sazonal no sul do Brasil. Cabanne e Seipke (2005) registraram grupos de muitos indivíduos em vôos planados ao longo das encostas do Itatiaia (RJ), comportamento que levou os autores a sugerirem um comportamento migratório. Os mesmos autores avistaram outros indivíduos na mesma área que não apresentaram o mesmo comportamento de se agregarem em bandos em vôo planado, assim como não foram considerados como migrantes. Em um trabalho sobre a biologia da espécie realizado por Azevedo et al (2006) sugerem três hipóteses: a) que alguns indivíduos permanecem em suas áreas de reprodução durante o outono e inverno, b) ou que iniciam seus movimentos mais tarde e c) teríamos duas populações de gavião-bombachinha, uma residente e outra migratória que passaria sobre as residentes.

Registro do gavião-de-asa-larga em Presidente Figueiredo - AM, Dez 2008. Foto: Robson Czaban
Publicado em: 23 de Agosto de 2010.

Bibliografia:
Azevedo M.A.G., Piacentini V.Q., Ghizoni-Jr I.R, Albuquerque J. L. B., Silva E. S., Joenck C. M., Mendonça-Lima A., Zilio F. Biologia do gavião-bombachinha, Harpagus diodon, no estado de Santa Catarina, sul do Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia 14 (4) 351-357 dezembro de 2006.
Cabanne, G. S. e S. H. Seipke (2005) Migration of the Rufous-thighed Kite (Harpagus diodon) in southeastern Brazil. Ornitol. Neotrop. 16: 547-549.
Drummond, Sávio M. (2010). Notas sobre falcões peregrinos (Falco peregrinus, Tunstall 1771) em período de invernagem na Bahia. Portal Aves de Rapina Brasil – Publicações online. Disponível em: < www.avesderapinabrasil.com > Acesso em Julho de 2010.
Nunes, A. P.; Tomas, W. M. (2004) Aves migratórias ocorrentes no Pantanal: Caracterização e conservação. Corumbá: Embrapa Pantanal, 27p. ISSN 1517-1973; 62.
OBS: Todas as outras informações científicas contidas nessa matéria retirei das respectivas fichas das espécies citadas desse mesmo site, portanto as referências bibliográficas está na página das espécies.