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As aves de rapina e as Usinas Eólicas


Águia real voando próximo a um aerogerador do Parque Eólico Acampo Armijo (Zaragoza) na Espanha. Nesta ocasião a imponente ave de rapina voava a baixa altura no alcançe das pás do aerogerador. Foto: Sekano.net

Texto de: Willian Menq
A energia eólica, energia provida pelo movimento do ar (vento) sem dúvida é uma das fontes mais limpa do planeta, disponível em diversos lugares e em várias intensidades, uma boa alternativa para substituir outras fontes de energia poluentes. As usinas eólicas aproveitam a força da velocidade dos ventos para gerar eletricidade. São grandes hélices (como cataventos gigantes) instaladas em locais estratégicos. Esses locais devem ser privilegiados do ponto de vista de ventos, pois é necessário que haja vento, de preferência forte, o tempo todo. O Brasil tem grande potencial eólico possui várias usinas eólicas, concentradas principalmente nas regiões litorâneas, sobretudo na região nordeste do Brasil.


Apesar das usinas eólicas não serem poluentes, elas não são totalmente desprovidas de impactos ambientais. Além de alterar a paisagem, elas podem ameaçar aves, principalmente as espécies maiores e planadoras, como é o caso das aves de rapina. A localização é o fator de maior importância na determinação desses impactos. Quanto mais próximas se encontrarem as usinas eólicas de áreas de alimentação, migração, repouso e/ou nidificação de aves, maior a probabilidade de causar danos a avifauna. Os impactos podem dividir-se em dois tipos: diretos (resultantes da colisão com as estruturas/hélices existentes no parque eólico) e indiretos (perda de habitat, perturbação, etc.). As aves de rapina na maioria das vezes detectam a presença dos aerogeradores e os evitam, mas as vezes pode acontecer de elas não enxergá-las causando então a colisão, sugere-se que a taxa de mortalidade com colisões nessas aves pode ser atribuida as caracteristicas intrínsecas de cada espécie. Pode acontecer também de individuos jovens poucos experientes em vôo se chocar contra as hélices. Não é só a mortalidade com colisão, as aves de rapina também são afetadas no processo de construção dos parques eólicos quando localizados próximos a locais de nidificação gerando uma pertubação e também mortes ocasionadas por eletrococussão causada nas redes elétricas que são associadas as usinas eólicas.


Águia cobreira Circaetus gallicus morta devido a colisão contra uma pá de um aerogerador de uma usina eólica. São frequentes casos de colisão de aves de rapina em parques éolicos, isso é gera um grave freio para o crescimento da população destas aves de rapina, que só se reproduzem uma vez por ano. Nesta imagem, a águia era um individuo jovem, inexperiente em vôo. Foto: Sekano.net

Nas aves de rapina, mesmo uma taxa de mortalidade baixa pode ser muito relevante (impactante) principalmente as espécies de grande porte como as águias e os abutres, pois possuem baixas densidades populacionais, taxa anual de reprodução muito baixa e maturação sexual tardia. Além disso são predadoras, responsáveis por garantir o equilibrio na cadeia alimentar, controlando a população de presas, a ausência de alguns individuos poderiam gerar um desequilibrio ambiental na região. Na Espanha, estudos revelam que as aves de rapina mais afetadas são as espécies que habitam ambientes rupicolas (campos abertos) como é caso do Abutre leonado Gyps fulvus, o Peneireiro Falco tinnunculus e a Águia cobreira Circaetus gallicus, ambos adaptados a paisagens alteradas como nas usinas eólicas.


Aguia Real Aquila chrysaetos encontrada morta [decapitada] por uma pá em uma usina eólica em Zaragoza - Espanha. 2005. Foto: Sekano.net

Pesquisadores do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) e da Fundación Migres da Espanha, inventaram um dispositivo capaz de detectar a presença de aves grandes como as aves de rapina, afim de desligar as hélices dos aerogeradores para evitar a morte dessas aves. O dispositivo dispõe de uma minicâmera que permite detectar as aves, nos primeiros testes realizados, o dispositivo conseguiu detectar as aves a cerca de 750 metros dos moinhos eólicos, com essa distância daria uma margem segura para freiar as hélices de 15 voltas por segundo para 3 voltas. Desde a década de 60, a Aves tem sido alvo de discussões aos impactos negativos gerados pelos Parques Eólicos. Porém, a falta de estudos contribuiu para que não se tenha obtido um conhecimento preciso sobre os impactos que as usinas eólicas causam na avifauna. Contudo, é certo que as aves são afetadas, seja pela colisão direta com os aerogeradores, electrocussão nas linhas de transporte de energia e também na perturbação gerada em áreas de nidificação, alimentação, migração e repouso.

VIDEO - Para entender melhor como os acidentes com as aves de rapina nos parques eólicos acontecem, assista no video abaixo, a trágeca cena de um Abutre Gyps fulvus colidindo contra uma pá de do aerogerador:


Video: Abutre colidindo contra uma Pá de uma Usina Eólica.

Em estudos realizados na Europa e E.U.A. concluiu-se que mortalidades de aves em grande escala parecem estar associadas especificamente a zonas de importantes corredores migratórios ou de deslocações diárias muito frequentes, a zonas costeiras de grande abundância avifaunística ou a condições meteorológicas desfavoráveis. Nas usinas localizadas fora dessas zonas de corredores migratórios ou de deslocamento diários a taxa de mortalidade é muito baixa (média de 1 indivíduo/aerogerador/ano), quando os Parques Eólicos se encontram instalados em zonas importantes para aves verificou-se o oposto. Por esta razão, a construção de parques eólicos deve ser vista com um cuidado especial e planejada em nível local, regional e nacional. A prática mais segura é evitar a instalação de turbinas eólicas em terrenos de alto valor ecológico, além disso, todos os parques eólicos devem ser equipados com sinalizadores anti-colisão e armações de apoios seguras para aves. Deve-se planaejar a instalação de uma usina eólica evitando o periodo de reprodução das espécies (primavera). Com uma boa avaliação, beneficiaremos tanto a população e o meio ambiente.

Embora o Brasil ainda possua poucas usinas eólicas, o país tem um grande potencial para esse tipo de energia e espera-se que ele se aproveita mais disso e um futuro próximo, já que atualmente só explora 1% de seu pontencial eólico. Esse texto não é uma crítica contra as usinas eólicas, muito pelo contrário, é uma energia limpa que merece todo o apoio e incentivo do publico em geral, só é preciso que as empresas se atentem a essas questões aqui expostas para causar o mínimo possível de impactos sobre a biodiversidade, em especial as aves.


Parque Eólico (foto Diego Sánches)

Publicado em: 14 de Abril de 2010.

Bibliografia: Todas as informações científicas contidas nesse texto retirei das respectivas fichas das espécies citadas desse mesmo site, portanto as referências bibliográficas esta na página das espécies.