Corujas Brasileiras

Coruja buraqueira (Athene cunicularia) Foto: Willian Menq
Texto de: Willian Menq 
As corujas, mochos e caburés formam um grupo de aves com padrões bastante característicos de comportamento, morfologia e anatomia. São aves da Ordem Strigiformes que são divididas em duas famílias: Tytonidae e Strigidae. Existem em todo o mundo mais de 210 espécies, numero na qual vem crescendo com as ultimas revisões sistemáticas e novas descobertas. No Brasil existem 23 espécies de corujas (CBRO, 2009) algumas tão pequenas como a corujinha-caburé, com cerca de 60g, até aquelas de grande porte como a coruja jacurutu (Bubo virginianus) com mais de 1 kg. Clique_aqui para acessar a lista das espécies do Brasil.
Essas aves são dotadas de uma excelente visão, enxergam bem tanto de noite como durante o dia. Durante a noite, sua visão é mais sensível e acurada que a maioria dos animais, e ao contrário do que se pensa, elas não são capazes de enxergar na ausência da luz. Com visão sensível e olhos relativamente grandes, elas aproveitam o máximo da luminosidade noturna para enxergar, muitas corujas ostumam aproveitar a luminosidade lunar para caçar. Por isso, muitos animais como roedores e marsupiais diminuem suas atividades em noites claras para diminuir o risco de ser predado por uma coruja. A audição dessas aves também é bastante desenvolvida, muitas vezes mais importante que a visão na hora da caça. Espécies como o mocho-diabo (Asio stygius) e suindara (Tyto alba) parecem ser as corujas brasileiras com audição mais apurada (Sick, 1997). Os ruídos produzidos pelas presas quando se locomovem na vegetação são detectados pelas corujas, e com isso consegue localizar sua presa na mais completa escuridão. Para garantir uma melhor eficiência na caça de animais, elas possuem penas de vôo serrilhadas na qual diminuem o ruído do vôo.
Dentre as corujas brasileiras, a mais conhecida é a coruja-buraqueira (Athene cunicularia), facilmente vista durante o dia em ambientes urbanos e rurais. Outra muito popular é a suindara (Tyto alba) conhecida por nidificar em forros de casas, sótão, celeiros e torres de igreja, comportamento reprodutivo que justifica alguns de seus nomes populares: coruja-das-torres e coruja-de-igreja. A corujinha-do-mato (Megascops choliba) é uma espécie comum nos parques urbanos, sítios, e bosques das cidades, é estritamente noturna e quase sempre fica empoleirada, sua vocalização lembra um sapo-cururu. A corujinha-caburé (Glaucidium brasilianum) é mais diurna, e apesar de pequena não hesita em caçar aves de seu tamanho, interessante é que essa ave apresenta na nuca penas mais escuras formando duas manchas como se fossem dois olhos, desse modo, confunde qualquer predador parecendo sempre estar de frente.

Murucututu-de-barriga-amarela alimentando-se de um Periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri).
Foto: Thomaz Raso |

Detalhe dos "falsos olhos" na nuca da corujinha-caburé, caracteristica também presente em outras espécies do mesmo gênero. Foto: Douglas P.R. Fernandes |
Crendices populares:
Devido aos seus hábitos noturnos e vocalizações típicas, estas aves têm sido associadas à má sorte e a mau agouro. Em alguns países da Europa, as corujas eram vistas como bruxas. No norte do Brasil, para alguns, elas representam sorte. Mas na maioria das vezes são associadas a aves que trazem azar e morte, como é o caso da suindara (Tyto alba) que de acordo com a crença popular, ao voar sobre uma casa ou pousar em seu telhado, ela anuncia a morte de alguém que vive ali. Infelizmente, devido a essa "má fama" as corujas acabam sendo prejudicadas, pois acabam sendo caçadas ou exterminadas em função do preconceito derivado dos mitos e crendices. Nesses casos a educação ambiental é indispensável para eliminar a disseminação de informações errôneas e prejudiciais as corujas.
Habitats:
As corujas neotropicais são as menos estudadas (Marks et al 1999). A maioria das espécies que ocorrem no Brasil utilizam habitats florestais, e boa parte habitam a Mata Atlântica (Sick, 997; Souza, 2002). Entretanto, as espécies coruja-buraqueira (Athene cunicularia), suindara (Tyto alba), coruja-dos-banhados (Asio flammeus) e coruja orelhuda (Asio clamator) são associadas às regiões abertas, como áreas urbanas e rurais, campos, restinga. Esta ultima espécie também é associada a bordas de floresta. Corujas maiores como a murucututu (Pulsatrix perspicillata) e a coruja-diabo (Asio stygius) são mais raras, já que são estritamente florestais e encontradas apenas em remanescentes de mata com grandes dimensões. No nordeste brasileiro ocorre uma das corujas mais raras e ameaçadas de extinção do mundo, a rara caburé-do-pernambuco (Glaucidium mooreorum), restrita aos raros remanescentes de floresta atlântica de Pernambuco. Na mata atlântica ocorre algumas espécies exclusivas do bioma, como é o caso da caburé-miudinho (Glaucidium minutissimum). A corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae) está limitada a porção sul da floresta atlântica, ocorrendo no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Outras corujas como a murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana) e a coruja-listrada (Stix hylophila) também só ocorrem na Mata Atlântica. Na amazônia encontra-se a caburé-da-amazônia (Glaucidium hardyi), espécie rara e de difícil observação, habita preferencialmente o dossel da floresta. A coruja-de-crista (Lophostrix cristata) ocorre desde a America Central até parte da América do Sul. No Brasil ela ocorre na região norte, é estritamente noturna, vive em densas matas e nas copas.
Familia de Corujinhas-do-mato. Sítio no Bom Retiro - Bragança Paulista/SP. Foto: Douglas Carvalho |

Mocho-dos-banhados em vôo sobre o ninho.
Foto: Willian Menq |
Reprodução e comportamento:
No Brasil, o período reprodutivo das corujas tem início no começo da primavera, enquanto em regiões mais quentes do Brasil com grande oferta de presas esse período ocorre durante o ano todo. É nessa época que as corujas vocalizam bastante, machos e fêmeas cantam e chamam um aos outros a procura de um parceiro para se reproduzir. Existe dimorfismo sexual de tamanho, embora menos pronunciado em Strigiformes, se comparados, aos Falconiformes e Accipitriformes. Os machos selecionam o território de acordo com o potencial para reprodução e locais apropriados para ninhos. Além de tentar conquistar a fêmea pelo seu território, os machos podem oferecer uma presa, como um roedor ou um inseto, como presente de núpcias.
As corujas não constroem ninhos, se aproveitam de cavidades ou ninhos feitos por outros animais para nidificar. A coruja-buraqueira (Athene cunicularia) nidifica em cavidades e buracos feitos por outros animais, podendo ela ampliar os buracos construídos por tatus usando ambos os pés. A coruja-dos-banhados (Asio flammeus) prefere utilizar depressões no chão entre a vegetação para nidificar, tem espécies que se reproduzem em cupinzeiros como é o caso da corujinha-caburé. A maioria das espécies florestais se utilizam de cavidades em árvores para nidificar. Outras como a Suindara preferem nidificar em cavidades artificiais como torres, e forros de casas.

A esquerda filhotes de coruja-buraqueira no ninho, Foto: André L. M. C.. A direita ninho em meio a vegetação da Coruja-dos-banhados. Foto: Willian Menq

A esquerda corujinha-do-mato nidificando em um buraco de um tronco de árvore, Foto: Bob Paty. A direita, ninho de Suindara em um forro, Foto: Lorena C. Souza.
No período reprodutivo, as corujas defendem ativamente o ninho, emitindo vocalizações de alarme e dando vôos rasantes sobre os invasores. Embora algumas espécies sejam predadoras de topo, corujas menores podem ser predadas por outras aves de rapina e também por mamíferos carnívoros. Além das defesas ativas já citadas, algumas corujas usam estratégias passivas de defesa. A Coruja-orelhuda (Asio clamator), por exemplo, costuma "inflar" o corpo eriçando as penas e também estala o bico na tentativa de intimidar o predador. A presença de corujas durante o dia sempre causa tumulto entre as aves em geral. As aves em geral (principalmente os passeriformes) ao detectar uma coruja costumam fazer chamados de alerta, vocalizando bastante também a dar vôos agressivos contra a coruja até espantá-la do local, esse comportamento é chamado de "mobbing behaviour" (comportamento de tumulto). Algumas espécies de corujas podem se aproveitar desse comportamento de tumulto para caçar uma ave, Motta-junior (2007) relatou uma corujinha-caburé predando uma tesourinha (Tyrannus savanna) durante um comportamento de tumulto.

Foto 2. Coruja-orelhuda imatura "inflando" o corpo para intimidar o invasor.
Foto: Fernando Araújo
Ameaças e Conservação:
A maioria das causas de mortalidade não naturais dessas aves destaca-se a caça e perseguição por humanos, eletrocussões, intoxicações, atropelamentos e acidentes em cercas com arame farpado. Pouco se sabe das corujas neotropicais, por serem na maioria das vezes noturnas, de difícil visualização e com baixas densidades populacionais, acabam sendo pouco estudadas. Na maioria das listas de espécies ameaçadas de extinção, a ausência das corujas reflete na falta de informações das mesmas.
Dentre as corujas brasileiras, podemos citar algumas potencialmente vulneráveis como é o caso da caburé-de-Pernambuco (Glaucidium mooreorum) descoberto em 2002, endêmica da mata atlântica do nordeste. A coruja-dos-banhados (Asio flammeus) embora tenha ampla distribuição no Brasil, conta com poucos registros, indicando baixa densidade populacional, que pode levar a extinções locais em áreas com atividades antrópicas. Outras espécies são raras e com observações pontuais no Brasil, como é caso do caburé-acanelado (Aegolius harrisii) e da coruja-preta (Strix huhula). A maior causa do possível declínio nas populações de corujas é provavelmente a degradação de seu ambiente natural, principalmente as espécies florestais e de grande porte. São predadores e, portanto mais sensíveis a mudanças ambientais do que animais que ocupam outras posições na cadeia alimentar.

A esquerda coruja suindara morte em rede elétrica. A direita Corujinha-do-mato atropelada em rodovia.
Publicado em: 15 de Junho de 2010.

Bibliografia:
CBRO - Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (2009) Listas das aves do Brasil. Versão 9/8/2009. Disponível em <http://www.cbro.org.br>. Acesso em junho de 20010
MARKS, K. S.; CANNING, R. J.; MIKKOLA, H. (1999) Family Strigidae (Typical-owls) pp. 152-238. in: del Hoyo eds (1999) Handbook of the birds of the world, vol. 5, Lynx Edicions, Barcelona.
Motta-Junior, J. C.; Bueno, A. A.; Braga, A. C. R. Corujas Brasileiras. Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Texto disponível em: < http://www.ib.usp.br/labecoaves/PDFs/pdf30CorujasIBC.pdf > Acesso em Junho de 2010.
Motta-Junior, J. C. (2007) Predação de Tyrannus savana, que exibia comportamento de tumulto, por Glaucidium brasilianum, no sudeste do Brasil. Biota Neotrop. vol. 7, no. 2. ISSN 1676-0603.
SICK, H. (1997) Ornitologia brasileira. 2ª. ed. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
SOUZA, D. (2002). All the birds of Brasil: an identification guide. Ed. DALL. Bahia, Brazil, 356p.