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Aves de rapina e suas técnicas de caça


Gavião-pato perseguindo um bando de periquito-rei. Itacaré/BA. Foto: Leonardo Patrial

Texto de: Willian Menq
Publicado em: 06 de Março de 2013

As aves de rapina, por serem predadoras, possuem diversas estratégias de caça. Cada espécie tem seu método adequado ao tipo de presa que costuma predar e também ao ambiente em que vive. Assim, gaviões florestais que perseguem aves apresentam aerodinâmica adaptada a voos ágeis entre os obstáculos da floresta; rapinantes planadores possuem asas largas e amplas para planar e vasculhar o solo a grandes alturas; falcões têm asas longas e pontiagudas, ideal para perseguir aves e morcegos nas áreas abertas em alta velocidade; corujas têm voo silencioso, audição e visão noturna aguçadas para localizar e surpreender suas presas; etc.

Segundo Fox (1995), as espécies que vivem e atacam presas em ambientes abertos, como campos naturais e montanhas, normalmente possuem ataques mais táticos, premeditados e espontâneos. Já os rapinantes florestais, como os do gênero Accipiter, que capturam presas ágeis e ativas (como aves) em distâncias curtas, possuem reações muitos rápidas e impulsivas, sem tempo suficiente de calcular a "viabilidade" da caçada. Seu cérebro só processa a informação quando já esta em voo para atacar, e se identificar a possível presa como algo de pouco interesse aborta a caçada.

Predadores de "busca" e de "ataque"
De modo geral, podemos classificar dois tipos principais de rapinantes predadores: os de "busca" e os de "ataque". Os rapinantes de busca são os gaviões planadores, gaviões-milanos, tartaranhões, abutres e corujas, eles tendem a caçar pequenos roedores, répteis, anfíbios e invertebrados, dos quais são indefesos, muito abundantes, fáceis de capturar e pouco reagem durante a predação. Os ataques dos rapinantes de busca geralmente são mais simples e realizados a curtas distâncias.

No outro extremo está os rapinantes de ataque. Neste grupo está incluído a maioria dos gaviões açores (Accipiter sp), falcões, falcões-florestais (Micrastur) e algumas águias. As espécies "de ataque" realizam ataques mais complexos e a distâncias variáveis. Algumas vezes as caçadas de perseguição de alguns falcões podem ultrapassar mais de 3 km. Ao contrário do outro grupo, as presas dos rapinantes de ataque são vertebrados ágeis, relativamente grandes, e quase sempre estão em alerta. Além disso a presa mostra um comportamento de fuga mais desenvolvido, e pode viver em grupo, o que ajuda a detectar os predadores.

A maioria dos rapinantes possui mais de uma estratégia de ataque, sendo que a caça a partir de um poleiro e as perseguições em voo as mais utilizadas.

Caça a partir de um poleiro
A caça a partir de um poleiro, sem dúvida é a estratégia mais utilizada pelas águias, corujas e gaviões de todo o mundo, pois requer o mínimo de esforço. Nesta técnica, a ave fica à espreita em um poleiro alto (pode ser um galho, poste, tronco), no momento certo voa em direção à presa no solo, na água ou até mesmo no ar. Pequenos gaviões e corujas procuram por presas normalmente a um raio de 10 ou no máximo 100 metros, enquanto grandes águias e falcões pode detectar sua presa a mais de quatro quilômetros. Se a ave não encontra nada no poleiro usado, ela pode voar para um novo poleiro para examinar uma nova área.

É dessa forma, por exemplo, que o acauã (Herpetotheres cachinnans) encontra cobras e serpentes, espreitando de um poleiro elevado até visualizá-las. As corujas, praticamente todas, também caçam usando um poleiro, sua visão sensível e audição apurada, auxilía na detecção de suas presas em ambientes pouco iluminados. Gaviões e águias florestais podem utilizar corredores e trilhas existentes na mata como área de caça. O gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) costuma usar esses corredores, caça principalmente no interior da floresta, voando silenciosamente e rapidamente entre as árvores, capturando presas tanto no solo quanto nas árvores. Jorge L. B. Albuquerque (obs. pess.) já observou essa tática nas florestas do interior de Santa Catarina. Whitacre et al. (1992) também viu algo similar em seus estudos na Guatemala. Relato interessante também é de Rodinson (1994), que observou esta águia atacando saracuras e frangos d'agua em águas rasas no Peru. A caça a partir de um poleiro também é usada por rapinantes insetívoros, já observei no interior do Paraná, um sovi (Ictinia plumbea) aguardando de um poleiro o momento certo para capturar um besouro no ramo de uma árvore próxima.


Gavião-de-cauda-curta (B. brachyurus), espécie caça preferencialmente aves em voo ou pousadas.
Foto:
Pablo Cezar Uez (Caxias do Sul/RS)

Tipos básicos de estratégias usadas pelas aves de rapina: Caça em voo, a partir de um poleiro, técnica de peneirar e caça a partir de voo planado.

O gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), na maioria das vezes, forrageia no interior da floresta, onde permanece em um poleiro, dirigindo-se a outro silenciosamente até detectar e capturar sua presa. Já o gavião-pombo-grande (Pseudastur polionotus) captura presas no ar, fica na espreita em poleiros expostos, atacando aves que passam ao seu redor. Outra tática dos rapinantes é permanecer próximo de árvores de frutificação para caçar as aves que ali frequentam. O gavião-real-falso (Morphnus guianensis), por exemplo, usa essa estratégia, há relatos dele capturando aves grandes como jacus e jacamins distraídos se alimentando de frutos (Sick 1997). Thiollay (2007) também já relatou ataques frequentes do gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) contra aves em árvores frutíferas nas florestas da Guiana Francesa.

O gavião-pernilongo (Geranospizia caerulescens) possui uma estratégia de caça pouco comum. Ele possui pernas longas e uma articulação intertarsal bem móvel, capaz até de se dobrar para trás. Assim, consegue explorar cavidades, como interior de bromélias para capturar anfíbios, fendas em rochas e buracos em árvores, capturando lagartos, baratas, aranhas e filhotes de outras aves.


Gavião-pernilongo caçando
na tática de explorar cavidades e buracos em árvores
Foto:
Alastair Rae

Corujinha-caburé com tesourinha que foi capturada enquanto realizava comportamento de tumulto.
Foto:
José C. Motta-Jr

Murucututu-de-barriga-amarela
com periquito que acabara de capturar na floresta.
Foto: Thomaz Raso

Seguindo formigas-de-correição
Gaviões florestais podem seguir formigas-de-correição para encontrar e capturar suas presas. Gaviões insetívoros capturam os insetos afugentados pelas formigas, enquanto os mais especialistas capturam os pequenos pássaros que são atraídos pelas formigas. Espécies como o falcão-caburé (Micrastur ruficollis), gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), gavião-bombachinha-pequeno (Harpagus diodon), sovi (Ictinia plúmbea), gavião-bombachinha-grande (Accipiter bicolor), dentre outras, têm esse hábito. Em Minas Gerais, Ferrari (1990) relatou a associação do gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) e do Sovi (I. plumbea) com um grupo de saguis (Callithrix flaviceps). Durante uma semana de observação, um casal de L. cayanensis foi visto capturando cigarras espantadas por um grupo de 11 saguis.

Caçando em grupo
Uma estratégia pouco comum nas aves de rapina é o ataque em grupo. O gavião-de-asa-telha (Parabuteo unicinctus) é uma das raras exceções. Caça em bandos de até seis indivíduos, o que permite cercar e capturar presas maiores, como lebres e coelhos. Há também espécies que caçam em dupla como é o caso do falcão-de-coleira (Falco femoralis). No interior do Paraná, já pude observar algumas vezes falcão-de-coleira caçando em dupla, perseguindo bandos de pombos-de-bando (Zenaida auriculata). No estado de São Paulo, Bruno Castelo (obs. pes.) observou um casal de gavião-pombo-grande (Pseudastur polionotus) coordenando um ataque contra um bando de maitacas (Pionus), enquanto a fêmea distraía a atenção do bando, o macho voava silenciosamente por dentro da mata na direção das maitacas.

Caçando em ambientes urbanos
Espécies que habitam os centros urbanos, como o gavião-carijó (Rupornis magnirostris) e quiriquiri (Falco sparverius), usam postes, antenas de TV e fios de eletricidade como poleiros para caça. Algumas corujas, como a corujinha-do-mato (Megascops choliba), utilizam postes, muros e mourões próximos a postes de iluminação para caçar, pois a luz atraí grande quantidade de insetos. Mas o falcão-peregrino é o mais fantástico predador das cidades, utiliza poleiros extremamente altos, como torres de celulares, catedrais com torres altas, quinas e bordas de terraços de prédios altos, de onde se lança em voo para perseguir pombos e outras aves urbanas. No mar, já foi visto o falcão-peregrino usando mastro de navios como poleiro para lançar ataques sobre aves marinhas (GRIN 2013).

Habilidades para a pesca
Há também, rapineiros especializados na pesca. No Brasil, existem duas espécies pescadoras: a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o gavião-belo (Busarellus nigricollis). A águia-pescadora costuma circular sobre o rio até localizar o peixe na superfície ou logo abaixo dela, então desce rapidamente, e apanha a presa com as garras dos dois pés. Às vezes, o peixe está em profundidade que a obriga a águia mergulhar o corpo e cabeça, mantendo as asas fora d’água. A águia-pescadora captura peixes de 150 a 300 g, e depende de águas claras para caçar.

O gavião-belo já prefere ficar de um poleiro próximo ao rio, ali fica pousado durante longas horas, à espera de movimentos na água que denuncie a presença de um peixe. Quando isso acontece, voa rapidamente até o local e captura a presa com os pés. Uma adaptação interessante das rapineiras pescadoras é a presença de pequenos espinhos na sola dos dedos, o que evita que suas presas (peixes) escorreguem. Alguns gaviões ocasionalmente podem pescar, como é o caso do gavião-preto (Urubitinga urubitinga), gavião-de-anta (Daptrius ater) e chimango (Milvago chimango). Olmos & Sazima (2009) registram o gavião-de-anta capturando pequenos peixes vivos que se deslocavam rio acima nas corredeiras do Rio Roosevelt, Amazonas. Os peixes eram apanhados individualmente, tanto com o bico como com as garras, em um trecho de águas rasas com muitas plantas aquáticas. Sazima & Olmos (2009) também descreveram o chimango (Milvago chimango) pescando num estuário no Chile. A ave voava e planava próximo a superfície da água, pairando de vez em quando. Após isso, o chimango baixava altura rapidamente e tentava apanhar a presa na água. Se bem sucedido, carregava o peixe em suas garras e pousava numa praia próxima, onde a presa era consumida.


Águia-pescadora nas águas do Rio Branco, Boa Vista/RR.
Foto: Ed Andrade Júnior

Acauã, especialista em predar cobras, capturando uma no solo
Foto: Maurício Peixoto

Gavião-peneira utilizando a tática de parar no ar "peneirar"
Foto: Thiago Fenolio

Peneirando:
Em ambientes onde os poleiros elevados são escassos/ausentes, como os campos abertos, alguns gaviões desenvolveram outras técnicas para localizar suas presas. O gavião-peneira (Elanus leucurus) utiliza a técnica de “peneirar” no ar, fica batendo as asas rapidamente no mesmo lugar e a pouca altura (de 8 a 20 m), procurando roedores no solo. Ao observar a vítima, fica com as asas na vertical e deixa o corpo cair, ao chegar próximo ao solo, dá uma batida de asa, para frear a queda e apanhar a presa. O tartaranhão-do-brejo (Circus buffoni) usa uma tática parecida, voa lentamente a baixa altura vasculhando a vegetação até localizar um pequeno vertebrado. O quiriquiri (Falco sparverius), a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o falcão-de-coleira (Falco femoralis) costumam “peneirar” só que em menor frequência. O gavião-de-cauda-branca (Geranoaetus albicaudatus) ao invés de peneirar ele fica parado no ar com as asas abertas e imóveis, consegue fazer isso pois afronta o vento forte. Esta técnica é intercalada com o vôo planado que é realizado graças ao uso das correntes térmicas, geralmente entre 50 e 100 m de altura.

Aproveitando as térmicas
Muitos gaviões costumam voar a grande altura se aproveitando das correntes de ar quente para pegar altitude. Quando localizam a presa no solo, voam em direção a ela perdendo altitude com as asas semi-fechadas e mergulham sobre o animal capturando a presa contra o chão. Este método é muito usado pelos gaviões e águias planadoras (gênero Buteo, Geranoaetus, Buteogallus, Urubitinga). As espécies que têm esse comportamento de caça possuem uma visão muito poderosa, capaz de detectar um pequeno roedor no solo a mais de 50 m de altura. Incêndios podem atrair várias espécies de gaviões, em número relativamente alto, que capturam no solo ou no ar animais intoxicados ou espantados pela fumaça. O gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis), geralmente pousa em galhos à frente do fogo ou caminha logo atrás das chamas, e apanha os pequenos vertebrados e insetos que fogem da queimada, também captura os animais mortos.

Perseguições
A caça em voo é muito utilizada por espécies caçadoras de aves, como falcões e gaviões do gênero Accipiter. Neste método, os indivíduos voam ativamente perseguindo e capturando suas presas tanto no ar quanto no solo. O gavião-bombachinha-grande (Accipiter bicolor) costuma voar sobre as copas das árvores em busca de aves desatentas. No interior de Santa Catarina, um A. bicolor foi observado caçando como um falcão, planando a grande altitude e posteriormente fazendo um mergulho picado sobre um grupo de canário-da-terra (Sicalis flaveola) e tico-tico (Zonotrichia capensis) (obs. pes. Jorge Albuquerque). Já observei um gavião-pato (Spizatus melanoleucus) caçando sobre a floresta, o indivíduo realizava vôos ondulados do tipo “montanha-russa” sobre o dossel com mergulhos e entradas na mata, alçando voo em seguida (Menq & Anjos 2011). Em época de revoadas de insetos, o gavião sovi (Ictinia plumbea) caça saúvas, libélulas e cupins no ar, o qual captura com os pés comendo ainda em pleno voo. O gavião-tesoura (Elanoides forficatus), gavião-bombachinha-pequeno (Harpagus diodon) e o falcão-cauré (F. rufigularis) também costumam penetrar nas revoadas de insetos. No município de Peabiru/PR, observei três falcões quiriquiri (Falco sparverius) realizando a caçada de insetos no ar próximo ao anoitecer, os quiriquiris ficaram sobrevoando um pasto por quase 1 hora onde capturavam os insetos em voo e comiam tanto em ar quando em poleiros preferenciais na área.

O tauató-pintado (Accipiter poliogaster) parece gostar de pombinhas, foi relato no interior do Paraná um indivíduo em uma veloz perseguição contra um pombo (Columbidae) em área habitada, neste caso, ambos colidiram com uma vidraça e morreram no local (Lanzer, et al. 2009). Há registros desta espécie perseguindo juriti Leptotila rufaxilla (Kaminski & Tres 2011). Falcões, como o falcão-de-coleira (Falco femoralis), falcão-peregrino (F. peregrinus) e o falcão-cauré (F. rufigularis) costumam iniciar perseguições contra morcegos no final da tarde, algumas vezes, já escuro, ainda estão caçando. No centro urbano de Maringá/PR, já foi visto falcões peregrinos perseguindo morcegos no inicio da noite, aproveitando-se da iluminação artificial para caçar (com. pess. Willian Menq). Em algumas regiões, falcões e até alguns gaviões se dirigem no final da tarde para poleiros próximos a entrada de cavernas para capturar os morcegos.

Rasgando o céu/voo picado
Uma das técnicas de caça mais impressionantes é sem dúvidas a do voo picado, onde a ave mergulha no céu em velocidades surpreendentes para capturar sua presa no ar. O falcão-peregrino é famoso por dominar esta técnica, muitas vezes ultrapassa 250 km/h nos mergulhos. O voo picado ocorre da seguinte forma: o falcão se aproveita das correntes de ar quente (térmicas) para ganhar altura, e quando avista sua presa (aves ou morcegos), deixa-se cair num ângulo mais ou menos pronunciado e por vezes em queda livre vertical, com as asas aerodinamicamente coladas ao corpo, e controlando magistralmente a sua velocidade, quer abrandando ligeiramente com as asas entreabertas, quer acelerando ainda mais com a ajuda de curtos e rápidos batimentos das asas. A violência do impacto é de tal ordem, que muitas das aves deste modo abatidas apresentam geralmente asas partidas, contusões múltiplas, ou cortes profundos e mais ou menos extensos infringidos pelas garras do falcão em pontos vitais. São conhecidos casos em que a infeliz presa é decapitada em vôo. Jenny e Cade (1986) já viram o falcão-de-peito-vermelho (Falco deiroleucus) descer em picado igual os falcões peregrinos. Este tipo de caça, apesar de ser o mais impressionante, é o menos utilizado pelos falcões, não sendo tão eficiente quanto o método de perseguição.


Sequência (frames) de um voo em mergulho do falcão-peregrino.
Foto: Sávio Drummond

Carrapateiro jovem atrás de carrapatos no dorso do gado.
Foto: Pedro Figueiredo

Carrapateiro adulto predando anfíbio em área urbana.
Foto: Luiz Freire

Enganando suas vítimas
O gavião-de-rabo-barrado (Buteo albonotatus), também chamado de gavião-urubu, tem um comportamento de caça diferente. Sua plumagem imita quase perfeitamente um urubu (Cathartes) em voo, com esse mimetismo, o gavião-de-rabo-barrado engana suas presas, pois ao imitar um urubu as outras aves não sentem-se ameaçadas e permitem a aproximação do gavião. Já o falcão-tanatau (Micrastur mirandollei) desenvolveu uma tática pouco usual na caça de aves. Pousado na parte baixa da floresta, emite sons para atrair suas presas, geralmente pequenos pássaros, curiosos com o som diferente. Assim, quando as aves entram no raio de ação do falcão, ele se lança em um voo rápido e captura uma das aves. Segundo Sick (1997), as aves visitantes oriundas do hemisfério norte caem com facilidade nesta estratégia do falcão, já que elas não conhecem os perigos escondidos na floresta amazônica.

Ataques oportunistas:
O caracará (Caracara plancus) é uma das espécies mais oportunistas, come praticamente de tudo, costuma patrulhar beira de estradas e até praias, atrás de animais atropelados, peixes morrendo em poças, em áreas rurais segue tratores vasculha a terra revirada atrás de minhocas e outros invertebrados. Saqueia ninho de outras ou fica próximo aos ninhais para comer restos de comida caídos no chão. Come carniça, chegando logo a uma carcaça. Aproveita também frutos e chega a ciscar o solo como uma galinha, atrás de sementes. O gralhão (Ibycter americanus) costuma predar ovos e larvas de vespas e abelhas, para isso têm o hábito de derrubar casas de maribondos e colmeias para então comê-las. Acredita-se que este gavião tenha desenvolvido algum tipo de repelente para se proteger dos ataques de vespas.

Na época de eclosão de ovos de tartarugas, muitas aves de rapina aparecem para aproveitar as presas fáceis, inclusive os urubus. O carrapateiro (Milvago chimachima) é onívoro assim como o caracará, além de patrulhar estradas atrás de carniça, possui o hábito de andar sobre o gado deitado e cavalos, procurando parasitas tais como carrapatos e bernes. Nas florestas, o canção-de-anta (Daptrius ater) também apresenta este comportamento sobre veados e antas, algumas autores dizem que quando uma anta ouve a vocalização do canção-de-anta ela emite um piado para atrair a ave para que tire os carrapatos dela.

Motta-Junior (2007) relatou no sudeste do Brasil, um ataque inesperado da corujinha-caburé (Glaucidium brasilianum) contra uma tesourinha (Tyrannus savana) que apresentava comportamento de tumulto frente a coruja. Embora a maioria dos autores em geral subestime o risco de predação das aves participantes de tumultos (mobbing em inglês), este e outros relatos espalhados pela literatura demonstram que tais eventos não são tão insignificantes e podem ser fatais para as aves, além de proveitosos para o predador.

Interessante também é o relato de Jose P. Dias no sul do Brasil. No município de Santa Margarida do Sul/RS, durante a noite, J. P. Dias observou um corujão (Bubo virginianus) predando uma caturrita (Myiopsitta monachus) no ninho. Na ocasião, a coruja voou até o ninho da caturrita, pousou na entrada ("boca do ninho") e enfiou uma das garras dentro do ninho capturando a ave.

Outro comportamento oportunista pouco relatado é o de predação de animais presos em redes-de-neblina e outras armadilhas. Curcino et al (2009) registraram um gavião-carijó (R. magnirostris) caçando um sabiá preso em rede-de-neblina. Olmos et al. (2006) relataram a grande audácia de um falcão-caburé (Micrastur ruficollis), em armadilhas tipo gaiola com iscas, o gavião capturava roedores e marsupiais através das grades da armadilha despedaçando-os em seguida com suas garras.


Abutre-do-egito usando pedra
para quebrar ovo.
Foto: Rafa Pelayo

Gavião-carijó, que através de um poleiro, capturou o roedor no solo.
Foto: Willian Menq

Gavião-de-cauda-vermelha (B. jamaicensis) perseguindo morcegos em voo. Foto: Mark Wilson

Embora o foco do texto seja as espécies do Brasil, vale a pena citar três estratégias interessantes de rapineiros do Velho Mundo. O abutre-barbado (Gypaetus barbatus), habitante das montanhas da Europa, Ásia e África, se alimenta quase exclusivamente da medula óssea presente no interior dos ossos de animais mortos. Para ter acesso à medula óssea das carcaças, ele carrega a carcaça a grandes alturas e solta em monte rochosos preferenciais, realiza isso repetidas vezes, assim a carcaça aos poucos vai se quebrando até ele conseguir acessar o alimento. O abutre-do-egito (Neophron percnopterus) costuma se alimentar de ovos, inclusive ovos de avestruz, que são enormes e têm uma casca muito resistente. Como não é capaz de quebrá-lo, o abutre aprendeu uma técnica rara, ele procura uma pedra pontuda, e segurando com o bico, atira sobre o ovo até quebrá-lo. Já a águia-real (Aquila chrysaetos) é uma eficiente predadora de pequenos e médios mamíferos e aves. Porém, existe uma população da espécie que se especializou na captura de tartarugas, ao localizá-las, a águia captura e carrega a presa para o alto, então solta a mesma sobre áreas rochosas até quebrar seu casco.

Estudos sobre as técnicas de caça das aves de rapina são importantes, pois ajudam a compreender a relação da espécie com o ambiente, podendo auxiliar nas estratégias de conservação.

 

 


Referências Bibliograficas:

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