Os locais de Nidificação

Ninho de gavião-real (Harpia harpyja) em uma árvore alta. Foto: João Marcos Rosa
Texto de: Willian Menq 
As aves de rapina no período reprodutivo precisam escolher um local para nidificar, algumas espécies constroem ninhos outras não. Os locais de nidificação são bastante variáveis, podendo ser sobre árvores, em ocos de árvores, no solo, no meio do capim ou em buracos no solo. Algumas aves, principalmente as da Família Falconidae, ocupam ninhos construídos por outras aves. Muitas aves de rapina reconhecem a construção e o local do ninho onde nasceram, repetindo os mesmos padrões na seqüência do próprio ciclo reprodutivo. Um casal pode utilizar o mesmo ninho por vários anos, sendo relativamente tais casos.
Muitas espécies são extremamente territoriais no período reprodutivo, como é o caso do gavião-carijó (Rupornis magnirostris) este defende a área do ninho contra qualquer intruso (inclusive o homem) através de vocalizações de alerta ou mesmo de vôos agressivos. O gavião sovi (Ictinia plumbea) também bastante agressivo, quando visualiza outra ave de rapina ou até mesmo urubus voando sobre o território do ninho, alça vôo e realiza “mergulhos” contra a ave até expulsá-la do local comportamento na qual é observado em diversas aves de rapina. Além de defesas ativas como as acima descritas, tanto os filhotes como os adultos podem apresentar exibições de defesa passiva. Algumas corujas “inflam” o corpo ao eriçar as penas e estala o bico na tentativa de amedrontar o predador, já os urubus costumam vomitar na tentativa de afastar o intruso no ninho.
A maioria dos gaviões nidificam em árvores a uma altura que varia de 2 a 30 metros de altura, usam gravetos e ramos para construir o ninho que pode ter de 30 a 80 cm de diâmetro (dependendo da espécie) e na maioria das vezes localizado em galhos no topo da árvore. De forma geral, dois a três ovos são postos por ninhada, sendo comum entre os Accipitrideos a postura de somente um ovo. A incubação tem início logo após a postura do primeiro ovo, podendo haver uma diferença de tamanho entre os filhotes. Com essa diferença de tempo, pode provocar a dominância de um filhote sobre o outro, ocasionando a morte dos ninhegos menores, geralmente morrem por não conseguirem disputar alimento com o irmão mais velho do ninho, ou por serem vítimas de fraticídio por competição.
Espécies que vivem em ambientes aquáticos como o gavião preto (Buteogallus urubitinga) e o gavião belo (Busarellus nigricollis) fazem seus ninhos próximos a rios e pântanos, o gavião caramujeiro (Rosthramus sociabilis) costuma construir seus ninhos a pouca altura da água, localizadas entre 1 a 4 m de altura em arbustos ou árvores sobre os rios. Os tartaranhões-do-brejo (Circus buffoni), o tartaranhão-cinza (Circus cinereus) assim como a coruja-dos-banhados (Asio flammeus) nidificam no solo de pântanos ou no meio do capinzal, ou em depressões no chão, sempre em locais camuflados pela vegetação.
Ninho de gavião-carijó em uma árvore. Peabiru/PR, Set 2006.
Foto: Willian Menq |
Ninho de águia-chilena em um penhasco. Serra da Canastra - MG
Foto: Geiser Trivelato |
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As águias florestais como a harpia (H. harpyja), uiraçu-falso (M. guianensis), gavião-pato (S. melanoleucus), gavião-pega-macaco (S. tyrannus) e gavião-de-penacho (S. ornatus) costumam fazer ninhos em árvores emergentes no meio da floresta com alturas que variam de 15 a 40 metros, geralmente escolhem as bifurcações principais ou secundárias para constuir o ninho. O ninho destas aves é uma plataforma imensa feita de pilhas de galhos secos que ultrapassam facilmente 1 m de diâmetro. Durante o período de reprodução costumam levar ao ninho ramos verdes para funcionar como "repelentes" espantando moscas e outros insetos. Estas águias fazem a postura de um único ovo, com um período de incubação que varia de 48 a 60 dias, havendo alguns relatos com duração maior, como é o caso de um ninho de Spizaetus tyrannus na acompanhado na Guatemala por Funes et al (1992), que teve um período de incubação de 71 dias. Os filhotes destas águias florestais tem um período de dependência dos adultos superior a um ano, o que faz com que os casais se reproduzam a intervalos de pelo menos 2 anos. Normalmente, os ninhos são reutilizados por vários anos seguidos, e a cada período reprodutivo são retocados.
Os falcões-florestais (gênero Micrastur) costumam nidificar em cavidades como ocos de árvores e penhascos sendo a ninhada composta normalmente de 2 ou 3 ovos. Com isso, a competição por ocos de árvores é alta, já que além dos falcões, as corujas, muitos mamíferos e outras aves costumam utilizar os ocos como abrigo e local para nidificação. No pantanal Mato-grossense o falcão-relógio M. semitorquatus costuma nidificar em cavidades situadas no tronco principal de manduvi (Sterculia apetala) onde disputa esses locais de nidificação com araras (Carrara et al 2007). O M. semitorquatus utiliza também cavidades no interior de grutas e cavernas na mata, e em locais habitados pode utilizar cavidades artificiais para nidificar, como já foi relatado no município de Lucena/RS, onde um falcão-relógio nidificou no interior de uma churrasqueira. Caso parecido já foi visto por moradores no município de Taquara/RS. Provavelmente a nidificação na churrasqueira demonstra um comportamento adaptativo em busca de novos locais devido à perda de habitat. Na Guatemala, Thorstrom (2001) constatou que o falcão-relógio nidifica em árvores maiores do que as escolhidas pelo falcão-caburé (M. ruficollis), o pesquisador explicou essa diferença pelo fato de o falcão-relógio ser maior do que o falcão-caburé e, portanto, necessita de cavidades maiores para os ninhos, que são encontradas em árvores maiores.
Falcão-relógio nidificando no interior de uma gruta. Cerro Azul/PR
Foto: Marcelo Villegas |
Falcão-relógio nidificando em uma churrasqueira. Taquara -RS
Foto: Juliano Jose de Farias |
Urubu-de-cabeça-preta nidificando em um edifício. Indaiatuba/SP.
Foto: Fabiana Cunha |
Os urubus não constroem ninhos, o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) costuma nidificar em ocos de árvores, em rochedos, penhascos até mesmo em locais habitados como no alto de edifícios e torres de igreja. O urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) nidifica no chão da mata, em locais escondidos pela vegetação, já o urubu-de-cabeça-amarela (C. burrovianus) prefere ocos de árvores. O urubu-rei (S. papa) além de ocos de árvores pode nidificar em fendas nos penhascos, morros e em locais escondidos no solo da mata. O período de incubação dos urubus em geral é de 40 dias, sendo que no urubu-rei o tempo média é de 53 a 58 dias.
As corujas não constroem ninhos, mas aproveitam cavidades em troncos, cupinzeiros ou diretamente no solo. Algumas espécies forram o chão do ninho com restos de pelotas e alimento para acomodar os ovos. Podem também utilizar folhas secas, vegetação ou esterco seco para forrar o ninho. Muitas vezes as corujas usam ninhos ou buracos feitos por outros animais como pica-paus e tatus. A coruja buraqueira (Athene cunicularia) nidifica em buracos no solo, na maioria das vezes são buracos abandonados por tatus e outros mamíferos, embora ela seja capaz de cavar sua própria cova prefere utilizar estes prontos, realizando pequenas adaptações e ampliando a cavidade. As suindaras (Tyto alba) nidificam em buracos em troncos, cupinzeiros e em locais habitados usam torres de igreja, galpões e forros de construções abandonadas.
Nas corujas, normalmente a postura constitui-se de dois a três ovos que são postos em intervalos de poucos dias. A incubação varia de 20 dias (como no caso da A. cunicularia) a pouco mais de 30 dias (T. alba e B. virginianus). Geralmente, se reproduzem uma vez ao ano, mas em tempos de fartura de alimento, podem criar duas e até três vezes num mesmo ano. Sua reprodução, portanto, está diretamente relacionada com a disponibilidade de alimento. Assim como nos gaviões, as corujas defendem ativamente o ninho na época reprodutiva, emitindo vocalizações de alarme e dando vôos rasantes sobre os invasores.
Suindara nidificando em um forro.
Na foto dois filhotes da espécie.
Votuporanga/SP.
Foto: Lorena C. Souza |
Corujinha-do-mato (Megascops choliba) chocando em cavidade natural.
Set. 2010.
Foto: Tony Bichinski Teixeira |
Ninho de Coruja-dos-banhados (Asio flammeus) escondido entre o capinzal. Peabiru/PR, Set. 2008.
Foto: Willian Menq |
Filhotes de coruja-buraqueira (Athene cunicularia) no entrada do ninho. Foto: André L. M. C. |
Corujão (Bubo virginianus) nidificando no alto de uma árvore.
Foto: Dennis Kienbaum |
Murucututu nidificando nos paredões do Buraco das Araras/MS.
Foto: Fernanda Melo |
Publicado em: 29 de Julho de 2010.

Bibliografia:
del Hoyo J., Elliott A. y Sargatal J. Eds. 1994. Handbook of the Birds of the World. Vol. 2. New World Vultures to Guineafowl, Lynx editions, Barcelona.
Funes, S.H., J. Lopez A., and G. Lopez A. 1992. Reproductive biology, food habits, and behavior of the Black Hawk-eagle in Tikal National Park. Pp. 173-178 in D.F. Whitacre and R.K. Thorstrom (eds.). Maya Project progress report V, 1992. The Peregrine Fund, Inc., Boise, ID.
Thorstrom R, Morales CM, Ramos JD (2001) Fidelity to territory, nest site and mate, survivorship, and reproduction of two sympatric forest-falcons. Journal of Raptor Research 35: 98-106
Sick, H. (1997). Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira
(OBS: Demais referências estão nas fichas das espécies citadas neste mesmo site)