INICIO > MATÉRIAS > RITUAIS DE ACASALAMENTO
 

Aves de Rapina: Os Rituais de Acasalamento


Casal de Falcões-de-coleira (F.femoralis) fazendo vôos pré-nupciais.
Quissamã/RJ, Maio 2010. Foto:
Gustavo Henrique Silveira.

Texto de: Willian Menq
Muitas espécies de aves têm durante o período de cortejo uma série de comportamentos mais ou menos ritualizados, exercido por um macho ou fêmea para cativar o interesse do oposto. Estes comportamentos executados antes, durante e depois do acasalamento é chamado de paradas nupciais. As exibições no período de cortejo são variadas, algumas espécies realizam manifestações sonoras, outras se exibem realizando danças ou vôos acrobáticos. Esses rituais pré-nupciais são realizados no fim do inverno/inicio da primavera.

As águias e os gaviões em geral, no período pré-nupcial, realizam vôos de acasalamento um ou dois meses antes do início da postura dos ovos. Eles fazem vôos acrobáticos, com perseguições, vôos circulares e mergulhos no céu, um lançando-se contra o outro, por vezes se tocando em pleno céu, fazendo verdadeiros espetáculos aéreos. Algumas espécies costumam oferecer presas para a fêmea. Neste período também emitem com frequência assobios altos e melodiosos que fazem parte do ritual. Após as paradas e consolidação do casal no seu território, o ninho é restaurado e/ou construído.

O gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), realiza exibições incríveis, em pleno céu o casal costuma fazer diversas acrobacias, um mergulha sobre o outro sem tocar, emitindo vocalizações típicas, comportamento já relatado por Canuto (2008) em Minas Gerais. O gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) costuma voar alto acima do dossel da floresta (110-120 m) ficando estático no ar e fazendo algumas acrobacias aéreas. Já o tartaranhão-cinza (Circus cinereus) após voltar de caçada, entrega a presa para fêmea em pleno vôo, ela alinha-se atrás do macho que larga o pássaro, a fêmea então freia com as asas apanhando o alimento com os pés. O gavião-de-cauda-curta (Buteo brachyurus) nessa época o casal realiza vôos circulares, danças aéreas e mergulhos no ar. Os gaviões-carijós (Rupornis magnirostris) comum nos centros urbanos, costumam voar com frequência nas redondezas do ninho, onde o casal realiza vôos circulares e por vezes algumas acrobacias.


Casal de águia-cinzenta em vôo acrobático, São J. dos Campos/SP.
Foto:
Calebe Dalprat

Casal de gavião-pato na RPPN Serra Bonita, Camacã - Bahia.
Foto:
Pedro Figueiredo

Casal de Quiriquiri (Falco sparverius) copulando. Porto Nacional/ TO.
Foto:
Wélison Aldo

A harpia (Harpia harpyja) costuma realizar vôos nupciais acima do dossel da floresta, J.L.B. Albuquerque (obs. pess.) registrou um casal em vôos nupciais em outubro de 1989 no município de Caldas da Imperatriz/SC. Jorge L. B. Albquerque ouviu uma vocalização forte e alta, ao olhar para o alto visualizou a possante águia circulando sobre o céu, logo em seguida, outra se juntou a ela, realizando vôos pendulares sobre a mata, ficaram assim por algum tempo, cerca de 10 min, até desaparecerem do local. Esse relato sugere que elas estavam construindo ninho nas proximidades, condições de habitat existiam e continuam existindo naquela região de SC. O gavião-real-falso (Morphnus guianensis), além dos vôos de cortejo, costumam vocalizar na região do ninho, Del Hoyo et al. (1994) observou o casal copulando no ninho assim que foi entregue uma presa como parte do cortejo.

O falcão peregrino apresenta uma série de rituais de cortejo, geralmente o macho oferece uma presa à fêmea que é deixada em uma plataforma ou entregue em voo. Os encontros nupciais terminam com o acasalamento, uma cerimônia ritualizada, na qual a fêmea adota um comportamento frequente dos falcões: pousada, ela inclina-se para frente, enquanto o macho se mantem em equilíbrio no seu dorso, batendo as asas e tendo o cuidado de conservar as garras retraídas para evitar ferí-la. No falcão-de-peito-vermelho (Falco deiroleucus) o macho entrega pelo menos três presas por dia para a fêmea, a cópula por vezes é precedida pela entrega de alimento (Del Hoyo et al. 1994). Nos caracarás (Caracara plancus), é comum observá-los antes de acasalarem fazendo "allopreening", ou seja, comporamento onde um executa a limpeza do outro com o bico.

Nos falcões-florestais (Micrastur spp.) como o falcão-caburé (Micrastur ruficollis), o cortejo inicia por chamados do casal, que começa cerca de 30-40 minutos antes do nascer do sol, é realizado também a entrega de alimento para a fêmea, comportamento similar ocorre com o falcão-relógio Micrastur semitorquatus (Del Hoyo et al. 1994). No Micrastur plumbeus, espécie florestal comum na região dos Andes, Colômbia e Equador, Salaman (1996) relatou um comportamento típico, a fêmea solicitou alimento para o macho através de uma série de chamados, o macho então foi em busca de um lagarto o qual capturou e entregou para a ela. O falcão acauã (Herpetotheres cachinnans) durante o cortejo, o casal costuma vocalizar constantemente por até 10 minutos ininterruptos.

O urubu-rei (Sarcoramphus papa) no periodo pré-nupcial, corteja a fêmea empoleirando próximo a ela ou no solo abrindo e fechando as asas exibindo sua vértice vivamente colorida, abaixando a cabeça, tentando ganhar a confiança dela. O urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus), adota um comportamento parecido com o de alguns gaviões, fazem espetaculares perseguições aéreas e manobras no ar. No condor-dos-andes (Vultur gryphus), espécie exclusiva da cordilheira dos andes, uma característica marcante da biologia reprodutiva da espécie no período de cortejo, é que realizam uma dança com as asas abertas acompanhada por assobios e sons guturais.

Nas corujas, nesta época muitas espécies costumam vocalizar com mais frequência para avisar sobre sua presença ao companheiro ou a um potencial rival. Algumas fazem duetos, como é o caso da Suindara (Tyto alba), onde a fêmea vocaliza nos intervalos que o macho intercala. A coruja-das-neves (Nyctea scandiaca) espécie que ocorre no hemisfério-norte, na primavera, os machos buscam atrair as fêmea da seguinte maneira: eles voam em torno dela agitando freneticamente as asas, com um roedor no bico. Quando percebe que a fêmea está observando, ele pousa no chão e deixa cair a presa. Com as asas semi-abertas anda em volta do roedor. Se a fêmea aproxima, ele vira as costas e esconde o roedor com as asas. Continua nessa posição, e ela curiosa, aos poucos vai se aproximando. Isso pode demorar horas, mas aos poucos um vai perdendo o medo do outro e ganhando confiança.

Ilustração mostrando o cortejo da coruja-das-neves (Nyctea scandiaca).

Após esse período pré-nupcial e de cópula, as fêmeas se fixam no ninho iniciando então, a nidificação. Os locais de nidificação são bastante variáveis, podendo ser sobre árvores (H. harpyja, Spizaetus, Morphnus), em ocos de árvores (Micrastur,Glaucidium, Strix), no solo de pântanos (Circus, Asio flammeus), no meio do capim, no solo ou em buracos no solo (Athene). Algumas aves, principalmente as da família Falconidae, ocupam ninhos construídos por outras aves. As aves de rapina, de uma forma geral, reconhecem a construção e o local do ninho onde nasceram, repetindo os mesmos padrões na seqüência do próprio ciclo reprodutivo. É relativamente comum o uso do mesmo ninho, durante vários anos, por um mesmo casal, sendo esse comportamento observado em algumas espécies como o gavião-real.


Casal de Suindara (Tyto alba) copulando. Itamarati de Minas/MG
Foto:Fabiano Guimarães

Casal de Sovi (Ictinua plumbea) copulando. Goiânia/GO. Ago 2009
Foto:
Wagner Machado C Lemes

Casal de gavião-de-cauda-branca. União do Sul/MT. Ago 2010.
Foto: Valdir Hobus


Publicado em: 10 de Julho de 2010.


Bibliografia:

Del Hoyo J., Elliott A. y Sargatal J. Eds. 1994. Handbook of the Birds of the World. Vol. 2. New World Vultures to Guineafowl, Lynx editions, Barcelona.

Márquez
, C., Gast, F., Vanegas, V. & M. Bechard. 2005. Aves Rapaces Diurnas de Colombia. Bogotá: Inst. de Invest. de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt.

Salaman
P. 1996. The field Study of Plumbeous Forest-Falcon Micrastur plumbeus and Barred Forest-Falcon M. ruficollis. First Year Field Report. Proyecto Biopacifico & Wildlife Conservation Society.

Sick
, H. (1997). Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira

OBS
: Demais referências estão nas fichas das espécies citadas neste mesmo site.