• Descrição: Macho e fêmea são idênticos, sendo a fêmea um pouco maior. Mede entre 46 e 56 cm e pesa de 500 e 700 gramas. A cor da plumagem varia entre indivíduos, havendo exemplares adultos de três tipos básicos: fase clara, fase creme e fase escura (Antas, 2005; Ferguson-Lees e Christie 2001). Adulto (fase clara): A plumagem é negra nas costas, parte superior do pescoço e alto da cabeça. As partes inferiores são brancas ou avermelhadas, com um colar da mesma cor na garganta, estendendo-se pela nuca. Logo abaixo dos olhos (muito grandes e escuros), há uma área da mesma cor da garganta. Entre essa região e o colar nucal, existe uma faixa negra, estreita e ligada ao alto da cabeça. Adulto (fase creme): possui plumagem parecida com a da fase clara, porém as partes inferiores do corpo é cor creme-amarelado. Adulto (fase escura): São os indivíduos melânicos que possui plumagem complatemente negra com algumas listras laterais claras na barriga e asas. Juvenis: possui plumagem muito variável, sendo que predomina a coloração marrom-escuro nas partes superiores, partes inferiores claras e listradas de marrom mais claro, sendo que o padrão é diferente a casa fase. No entanto, em qualquer plumagem, a longa cauda é negra, com 4 finas listras brancas, muito separadas entre si. As pernas são longas, amarelas, enquanto a pele nua das narinas é esverdeada e conectada à pele nua e proeminente ao redor dos olhos (Antas, 2005; Ferguson-Lees e Christie 2001). Conhecido também como gavião-relógio.
Indivíduo adulto (fase creme).
Caçapava do sul -RS.
Foto: Omar Guilhano Rosa Soares |
Indivíduo adulto (fase escura).
C
artago/Costa Rica, Abril de 2010.
Foto: Alex Vargas |

Indivíduo Jovem.
São José dos Campos - SP.
Foto: Rodrigo Dela Rosa de Souza |
• Espécies Similares: Indivíduos juvenis podem ser confundidos com falcão-caburé (Micrastur ruficollis) com jovens de gavião-bombachinha (Accipiter bicolor) e adultos na fase clara são similares ao falcão-de-buckley (Micrastur buckleyi).
• Alimentação: O falcão-relógio é um excelente caçador de aves, preda algumas bem maiores que ele próprio, apanha também cobras e lagartos. Os grandes olhos auxiliam nas caçadas dentro da mata e em horário de pouca luz, podendo usar sua audição aguçada para localizar a presa (Antas, 2005). Caça por emboscada, ficando na espreita a partir de um poleiro, voando de galho em galho ou voando entre os galhos, até mesmo no chão, com incrível agilidade e velocidade (GRIN, 2010). Foi observada uma tática pouco usual na caça de aves. Pousado próximo a uma correição de formigas (as quais atraem aves para apanhar os insetos espantados), emitia um chamado baixo, em um galho a 1 ou 2 metros do solo. Esse chamado, com características ventríloquas, atraia as aves para o raio de ação do falcão-relógio (Antas, 2005; Sick, 1997; Ferguson-Lees e Christie 2001).
Em um estudo na Guatemala, Thorstrom et al. (1990) encontrou penas de uma coruja-do-mato (Strix virgata) em um ninho do falcão-relógio na floresta do Parque Nacional de Tikal. Em um estudo mais detalhado de 1990-1992 sobre a alimentação desta espécie, Thorstrom (2000) registrou 222 presas que foram entregues para a fêmea no ninho e filhotes, sendo que destas 170 presas foram identificadas. Dentre as presas, 45,9% eram os mamíferos (78 itens), 34,7% aves (50 itens), 18,8% eram repéteis (13 lagartos e 19 serpentes) e 0,6% anfíbios (um sapo). O Tamanho das presas consumidas pelo falcão foram bastante variáveis, do sapo que pesava 20g até para um Perú-do-monte (Agriocharis ocellata) que pesava aproximadamente 3 kg, além um jovem jacu (Penelope purpuresecens). Entre os mamíferos predados, foram identificados 42 esquilos-deppe (Sciurus deppei), 11 esquilos-yucatan (Sciurus yucatanensis), Dois morcegos frugívoros (Artibeus spp), 14 outros morcegos não identificados, 7 ratos incluindo um rato-de-algodão (Sigmodon hispidus) e dois camundongos. Dentre as aves mais predadas, 9 eram Araçaris (Pteroglossus torquatus), 7 Aracuãs (Ortalis vetula), 6 Tucanos (Ramphastos sulphuratus), 4 Arapaçus (Dendrocincla homochroa), 3 Inhambu (Crypturellus spp) e 3 gralhas (Cyanocorax morio). Doze dos trezes lagartos caçados são do gênero Corytophanes e maioria das serpentes foram colubrídeos. Thorstrom (2000) determinou que esta espécie tem um nicho de ecológico maior do que o falcão-caburé Micrastur ruficollis (GRIN, 2010).
• Reprodução: Dados sobre a biologia reprodutiva desse grupo apontam para uma especialização em nidificação em cavidades como ocos de árvores, fendas e grutas (White et al. 1994). Bota de dois a três ovos com um periodo de incubação de 46 dias (Thorstrom, 2000; GRIN, 2010).
Vallejos et. al (2008) descreveram a nidificação do Falcão-relógio no Parque Estadual de Campinhos na Região Metropolitana de Curitiba/PR. O ninho situado no interior de uma gruta, foi construído em uma cavidade a aproximadamente 15 m da entrada da gruta. Desde as primeiras observações, constatou‑se que os adultos não limpavam o local do ninho, onde se acumulavam dejetos e restos de animais, tais como penas e ossos. Desde 2002 verificou‑se o uso regular da cavidade e postura de dois ovos de coloração marrom com manchas mais escuras de diferentes tamanhos. Após a eclosão dos ovos, na terceira semana de vida, os filhotes passaram a habitar o ninho sem a presença do adulto e aparentemente ambos os pais forneciam a caça (Vallejos, et. al., 2008). No Rio Grande do Sul, Marreis et al (2009) Registraram a presença de um falcão-relógio nidificando no interior de uma churrasqueira no município de Presidente Lucena, RS. A ave estava chocando dois ovos que resultaram em dois filhotes. O fato foi registrado em fotos e relatado por moradores da localidade aos autores. Provavelmente trata-se de comportamento adaptativo em busca de locais de nidificação devido à perda de habitat. Ato similar foi relatado por morados no municipio de Taquara-RS, onde um M. semitorquatus nidificou por vários anos consecutivos em uma churrasqueira (conforme as duas imagens abaixo).
Falcão-relógio nidificando em uma churrasqueira. Taquara -RS,
Foto: Juliano Jose de Farias |
Filhote no ninho construido em uma churrasqueira. Taquara -RS.
Foto: Juliano José de Farias |
Disputa com araras: Já que o falcão relógio nidifca principalmente em ocos de grandes árvores ele pode disputá-los com araras (Guedes 1993, Lopes Lanús 2000). Em um estudo de Carrara et. al, (2007) foram encontrados seis ninhos de M. semitorquatus no Pantanal Mato-grossense, todos em cavidades situadas no tronco principal de Sterculia apetala (manduvi). Estes também foram ocupados ou defendidos por araras-azuis e vermelhas. O período reprodutivo ocorreu de agosto a novembro, sobrepondo-se ao das araras. Apesar da sobreposição das estações reprodutivas e da utilização dos mesmos sítios de nidificação, o gavião-relógio ocupou apenas 4,6 % das cavidades utilizadas pelas araras. Estes baixos índices indicam que a competição por ninhos não representa uma ameaça efetiva às populações de arara-azul. O mesmo já não se pode afirmar para a arara-vermelha, pois contrariamente ao que ocorre com a arara-azul, esta espécie ocorre em baixas densidades e tem apresentado baixo sucesso reprodutivo na área estudada. Deste modo, a pressão exercida por M. semitorquatus, para esta espécie de arara, pode não ser desprezível (Carrara et. al, 2007).
• Distribuição Geográfica e Subspécies: O gavião-relógio habita as florestas da região neotropical, desde o México até o norte da Argentina (Bierregaard 1994, Ferguson-Lees e Christie 2001). São conhecidas duas subspécies, o Micrastur semitorquatus naso: que se distribui do norte e centro do México (Sinaloa e Tamaulipas) ao sul da América central até o oeste da Colômbia e Equador. Micrastur semitorquatus semitorquatus: desde o Leste da Colômbia, Guianas, Peru, Bolívia, por todo o Brasil até o Paraguai e norte da Argentina (Blake 1977). Recentemente foi registrado nidificando no município de Caçapava do Sul/RS, sendo este um dos registros mais ao sul da distribuição da espécie no Brasil(obs. pes. Omar G. R. S.).
• Hábitos/Informações Gerais: É um falcão florestal, habita o interior da mata, raramente observado nas bordas. Devido a seu comportamento é de difícil observação. Em geral, é mais escutado do que visto. Canta ao clarear ou ao escurecer, um chamado grave, transcrito com “ao”, sendo seus cantos bem pontuais. Essa é a razão do nome comum, devido à constância do intervalo entre os chamados. (Antas, 2005; Bierregaard 1994; Ferguson-Lees e Christie 2001).
Falcão-relógio nidificando no interior de uma gruta. Cerro Azul/PR.
Foto: Marcelo Villegas |
Filhote no ninho. O casal nidificou por 3 anos consectivos no mesmo ninho. Pará de Minas/MG, Nov 2008.
Foto: Fernando Araújo |
Indivíduo Jovem. Horto florestal, S. J. dos Campos/SP
Foto: Rodrigo Dela Rosa de Souza |
Filhotes no ninho. Caçapava do sul -RS.
Foto: Omar Guilhano Rosa Soares |
:: Página editada por: Willian Menq em 2011. ::

Contato
• Referências:
Antas, P. T. Z. Aves do Pantanal. RPPN. Sesc: 2005
Bierregaard, R.O. (1994) Collared Forest-falcon Micrastur semitorquatus, p 254. Em: J. A. del Hoyo, J. Elliot e J Sargatal (orgs.) Handbook of the birds of the World: New World Vultures to Guineafowl, v. 2. Barcelona: Lynx Edicions.
Blake, E. R. 1977. Manual of Neotropical Birds. The University of Chicago Press. Chicago and London. 674 páginas.
Carrara, L.A; Antas, P. T. Z; Yabe, R. S. Nidifcação do gavião-relógio Micrastur semitorquatus (Aves: Falconidae) no Pantanal Mato-grossense: dados biométricos, dieta dos ninhegos e disputa com araras. Revista Brasileira de Ornitologia 15 (1) 85-93 março de 2007.
Freguson-Lees, J. e D. A. Christie (2001) Raptors of the world. Boston, New York: Houghton Miffin Company.
GRIN - Global Raptor Information Network. 2010. Species account: Collared Forest Falcon Micrastur semitorquatus. Disponível: http://www.globalraptors.org Acesso em 27 Jun. 2010
Guedes, N. M. R. (1993) Nidifcação do gavião-relógio (Micrastur semitorquatus) no Pantanal, p.57. Em: Anais do III Congresso Brasileiro de Ornitologia. Pelotas: Sociedade Brasileira de Ornitologia.
López-Lanús, B. (2000) Collared Forest-falcon Micrastur semitorquatus courtship and mating, with take-over of a macaw nest. Cotinga 14: 9-11.
Marreis, I. T.; Dalenogare, R. B. & Sander, M. (2009). Ocorrência de nidificação adaptativa de gavião-relógio (Micrastur semitorquatus, Vieillot, 1817) em habitat antrópico no Rio Grande do SUl. BIODIVERS. PAMPEANA, v. 7, n. 1, PUCRS, Uruguaiana, 7(1): 47-50.
Sick, H.1997. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.
Thorstrom, R. 2000. The food habits of sympatric forest-falcons during the breeding season in northeastern Guatemala. Journal of Raptor Research 34:196-202.
Thorstrom, R., C.L. Turley, F.G. Ramirez and B.A. Gilroy. 1990. Description of nests, eggs, and young of the Barred Forest-falcon (Micrastur ruficollis) and of the Collared Forest-falcon (M. semitorquatus). Condor 92:237-239.
Vallejos, M.A.V.; Lanzer, M.; Aurélio-Silva, M. & Silva-da-Rocha, L.F. 2008. Nidificação de gavião-relógio Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817) em uma gruta no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia, 16(3): 268-270.
White, c. M.; olsen, P. d. e Kiff, L. F. (1994). Family Falconidae (Falcons and Caracaras), p. 216‑275. Em: J. del Hoyo, A. Elliot e J. Sargatal (eds.) Handbook of the birds of the world. Volume 2. Barcelona: Lynx
• Site associado: Global Raptor Information Network (em inglês)