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Gavião-real-falso
(Morphnus guianensis)

Morphnus guianensis (Daudin, 1800)
Ordem: Accipitriformes
Família: Accipitridae
Grupo:
Águias-florestais
Nome popular: gavião-real-falso
Outros Nomes: Uiraçu-falso
Nome em inglês: Crested Eagle
Tamanho: 81-91 cm de comprimento
Habitat:
Florestas
Alimentação:
Mamíferos, Aves e Repteis


Distribuição no Brasil:



Status:(NT) Quase ameaçado

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Indivíduo adulto. Paranaíta-MT, Janeiro de 2012
Foto: Christopher Borges


Vocalização de chamado - (gravado por: Jarol Fernando Vaca)

• Descrição: O gavião-real-falso (Morphnus guianensis) é uma águia florestal muito elusiva e possui uma ampla distribuição nos neotrópicos. É considerada mais rara que o gavião-real (Harpya harpyja) (Fergunson-Lee et al. 2001), mas isso pode ser uma questão de detecção diferenciada entre as espécies pelos observadores (obs. pess. Jorge Albuquerque). Tal espécie pode medir de 81 a 91 cm de comprimento, sendo as fêmeas maiores que os machos, característica comum nos accipitrídeos. Apresenta penacho negro com uma única ponta no alto da cabeça (diferente do gavião-real que tem duas pontas); possui fase de plumagem clara e escura (melânicos), esta última variando de quase que totalmente negro, ponteado de branco e faixas brancas na cauda, até com estrias brancas nas partes inferiores. Na fase clara, o branco predomina nas partes ventrais da ave, com estrias bege-claro (padrão que ajuda na identificação em relação à H. harpyja). Animais imaturos possuem cabeça e partes inferiores esbranquiçadas, com algum negro na crista. Partes superiores acinzentadas (Márquez, et al., 2005). Seus tarsos não são completamente emplumados, como ocorre nos representantes do gênero Spizaetus (Albuquerque et al, 2006; Sick, 1997). Conhecido por uiraçu-falso, falsa-harpia, gavião-real-falso.


• Status nas listas vermelhas estaduais:

  Paraná: Regionalmente Extinto (Mikich & Bérnils, 2004).
  Rio Grande do Sul: Provavelmente extinta (Marques, et al. 2002).
  São Paulo: Criticamente em perigo (Silveira et al., 2009).
  Minas Gerais: Criticamente em perigo (Drummond et al. 2008).
  Rio de Janeiro: Criticamente em perigo (Alves, et al. 2000).
  Espírito Santo: Criticamente em Perigo (Simon et al, 2007).
  Santa Catarina: Criticamente em Perigo (Ignis, 2008).

• Alimentação: O gavião-real-falso caça aves grandes como Jacus e jacamins, onde fica espreita próximos de árvores de frutificação para caçar as aves que ali frequentam (Sick, 1997). Executa longos vôos entre a densa folhagem das copas das árvores no interior da floresta, capturando macacos e outros primatas.

Há registros da predaçao por M. guianensis de: pequenos mamíferos e marsupiais, serpentes Colubridae e Boidae, um jupará (Potus flauvus), um anfíbio anuro, além de um ataque, sem sucesso a um grupo de jacamim-de-costas-cinzentas (Psophia crepitans) (Bierregard, 1984); um macaco Pithecia pithecia (parauacú) (Gilbert, 2000); um sagüi (Saguinus geoffroyi), um esquilo (Scirurus sp.) e um filhote de preguiça de três dedos (Bradypus variegatus) (Vargas et al.,2006); pequenos macacos Saimiri sciureus (Robinson 1994), Saguinus mystax e Saguinus fuscicollis (Heymann, 2001); Trail (1987) observou um ataque sem sucesso sobre um lek de galo-da-serra(Rupicola rupicola); um jovem macaco-aranha Ateles paniscus, (Julliot, 1994).

As serpentes estão presentes em grandes quantidades em muitos trabalhos sobre a alimentação da espécie (ICMBIO, 2008). Bierregaard (1984) observou principalmente répteis na alimentação de filhotes, enquanto Robinson (1994) registrou exclusivamente macacos. Sanaiotti durante a visita a um ninho ativo encontrou pequenos marsupiais, cobras e aves de rapina.

• Reprodução: Existem poucos dados da biologia reprodutiva desta espécie. Os ninhos são construídos a cerca de 30 m do solo e podem ser reutilizados durante vários períodos reprodutivos. Coloca um ou dois ovos entre setembro a dezembro, não há registros de sobrevivência de mais de um filhote por ninhada. O tempo de incubação é estimado entre 40 e 50 dias e durante esse período o macho fica incumbido de providenciar todo o alimento necessário para si e para a fêmea (Mikich & Bernils, 2004). Sanaiotti (in litt.) observou dois ninhos e ambos tinham seus filhotes prontos para voar em junho de 2007. O ninho possui menor porte que o de H. harpyja, de 1,1 a 1,3 metros de diâmetro e sem o uso de árvores emergentes.

Bierregaard Júnior (1984) acompanhou um ninho próximo de Manaus, mas não pôde registrar o desenvolvimento do filhote, por completo, devido ao seu desaparecimento (perda da cria para predadores ou morte dos adultos por caçadores). O ninho observado por Bierregaard (1984) no período de março a junho levou o autor a inferir que a incubação pode ser de 40 a 50 dias, sendo a postura feita entre meados de fevereiro e meados de março, no pico da estação de chuva.

• Hábitos/Informações Gerais: Habita as florestas primárias e secundárias da América Central e América do Sul, sendo encontrada em altitudes que vão desde o nível do mar até acima dos 1.000 m. Possui hábito diurno e vive solitariamente ou em pares, passando boa parte do tempo imóvel, oculta em um poleiro alto de onde procura suas presas (Sick, 1997; Ferguson-Less & Christie, 2001). Segundo alguns autores existe poucos estudos moleculares para justificar a manutenção do gênero Morphnus como um gênero distinto de Harpia.

• Distribuição Geográfica: Existia em grande parte do Brasil, podia ser encontrado em floresta amazônica e atlântica, mas com a eliminação da vegetação, principalmente na porção leste do Brasil, sua população tem-se reduzido consideravelmente, havendo ainda populações ao norte do país e nos grandes remanescentes atlânticos. Podia ser registrado também na América Central, a partir da Guatemala e Belize; em terras baixas, a oeste dos Andes na Colômbia e Equador; no sul do Paraguai e nordeste da Argentina. Atualmente, tornou-se bastante raro, ocorrendo principalmente na Amazônia, onde ainda há grandes áreas contínuas de florestas úmidas (Sick, 1997; Ferguson-Less & Christie, 2001).

• Registros recentes: Possui populações significativas apenas para a região amazônica (ICMBio, 2008). Registros recentes para a espécie são escassos. Zorzin et al. registraram um casal na Serra do Caparaó, MG em 1997, e Olmos et al. registraram alguns indivíduos no Amazonas recentemente (citados em: Albuquerque et. al., 2006). Em 2005 o gavião-real-falso (Morphnus guianensis) foi observado em Aiure município de Grão-Pará - SC, foram observados dois indivíduos o que provavelmente seja um casal (Albuquerque et al, 2006). A região em Grão-Pará onde M. guianensis foram observados fica no sopé da Serra Geral que apresenta uma faixa de floresta ombrófla densa, a presença destes dois indivíduos sugere que ainda existem alguns casais da espécie vivendo ao longo das florestas do sopé da Serra Geral (Albuquerque et al, 2006). A espécie é considerada extinta no Rio Grande do Sul (Bencke et al. 2003). No Paraná foi registrado somente um único indivíduo em 1964, mas devido às exigências de habitat da espécie, provavelmente era encontrado em toda a Floresta Semidecidual do estado (Mikich & Bernils, 2004). No museu da USP existe um único exemplar coletado em São Paulo, no município de Apiaí, mas sem data de coleta (ICMBio, 2008).

• Ameaças e Conservação: Esta espécie se enquadra no grupo de aves de rapina de grande porte estritamente florestais, que necessitam de extensas áreas de vegetação primária ou pouco modificada para sobreviver, incluindo a disponibilidade de itens alimentares (vertebrados de médio porte) e de sítios adequados para reprodução e abrigo. Fora da amazônia essa espécie é bem rara. Com isso, a principal ameaça ao gavião-real-falso é a alteração e erradicação de seu habitat, o qual permanece representado, com raríssimas exceções, por remanescentes de pequeno porte, invariavelmente alterados e absolutamente inviáveis para abrigar suas populações (Mikich & Bernils, 2004).

Além disso, pode-se mencionar que ataques fortuitos deste rapineiro a animais de criação acabam por estimular abates, os quais, ainda que pontuais, colaboram com o declínio desta espécie, já considerada rara em toda a sua área de distribuição contendo populações esparsas. Gerar conhecimento acerca da biologia e ecologia dessa espécie, mesmo em outras unidades federativas e países vizinhos, consiste em medida emergencial para que possam ser diagnosticados os impactos que causaram seu declínio populacional. Tais informações também proporcionariam base para a proposição de medidas mais efetivas para sua conservação, dentre as quais a re-introdução de espécimes para eventuais atividades de re-povoamento (Mikich & Bernils, 2004).



Macho adulto (fase clara)
em voo sobre a floresta.
Foto: Andrew Whittaker


Indivíduo adulto. Paranaíta-MT, Janeiro de 2012
Foto: Christopher Borges

Indivíduo adulto (melânico).
Rio Approuague. Guiana francesa, Agosto 2011. Foto:
Johann Tascon


Fêmea adulta no ninho. Manacapuru/AM, Agosto de 2010.
Foto:
Felipe Bittioli R. Gomes

Fêmea adulta.
Manacapuru/AM, Agosto de 2010.
Foto:
Felipe Bittioli R. Gomes

Macho adulto.
Manacapuru/AM, Agosto de 2010.
Foto:
Felipe Bittioli R. Gomes


:: Página editada por: Willian Menq em 2011. ::



Contato



• Referências:

Albuquerque, J. L. B.; Ghizoni-Jr, I. R.; Silva, E. S.; Trainnini, G.; Franz, I.; Barcellos, A.; Hassdenteufel, C. B.; Arend, F. L.; Martins-Ferreira, C. 2006. Águia cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) e o gavião-real-falso (Morphnus guianensis) em Santa Catarina e Rio Grande do Sul: Prioridades e desafios para sua conservação. Revista Brasileira de Ornitologia, 14 (4): 411-415

Albuquerque, J.L.B. (2000) Avifauna da Floresta Atlântica do sul do Brasil: conservação atual perspectivas para o futuro, p.273-285. Em: M. A. Alves, J. M. C. Silva, M. Van Sluys, H. G. Bergallo e C. F. D. Rocha (eds) A Ornitologia no Brasil: pesquisa atual e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora UERJ.

Albuquerque, J.L.B. (1983) Sobre la presencia de Harpyhaliaetus coronatus y Morphnus guianensis en el sudeste de Brasil y recomendaciones para la conservacion de lãs espécies mediante el mantenimiento de su médio ambiente natural. El Hornero 12: 70-73.

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Bencke, G. A.; C. S. Fontana, R.A. Dias, G. N. Maurício e J. K. F. Mähler Jr. (2003) Aves, p. 189-479. Em: C. S. Fontana; G. A. Bencke e R. E. Reis (orgs.) Livro vermelho da fauna ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS.

BIERREGAARD-JÚNIOR, R.O. Observations on the nesting biology of theGuiana Crested Eagle (Morphnus guianensis). Wilson Bulletin 96:1-5. 1984.

DRUMMOND, G.; MACHADO, A. B. M.; MARTINS, C. S.; MENDONÇA, M. P. e STEHHAN, J. P. Listas das Espécies da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção do Estado de Minas Gerais. Fundação Biodiversitas, Belo Horizonte, 2008.

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• Site associado: Global Raptor Information Network (em inglês)