INICIO > AVES DE RAPINA > CABURÉ-ACANELADO
   

Caburé-acanelado
(Aegolius harrisii)

Aegolius harrisii (Cassin, 1849)
Ordem: Strigiformes
Família:
Strigidae
Nome popular: caburé-acanelado

Nome em inglês: Buff-fronted Owl
Tamanho: 20 cm de comprimento
Habitat:
Florestas, borda de matas
Alimentação:
Insetos e pequenos vertebrados.

Distribuição no Brasil:



Status: (DD) Dados desconhecidos


Serra do Machado - Canindé/CE, Maio de 2004.
Foto:
Alberto Campos


Vocalização típica [C] - (gravado por: Weber Girão)

• Descrição: A caburé-acanelado (Aegolius harrisii) é uma das corujas menos conhecidas do Brasil, sendo citada para poucas  localidades do território nacional; é considerada uma "espécie_fantasma" (Menq, 2011). Possui 20 cm de comprimento pesando em torno de 130 gramas, coloração dorsal negra contrastando com disco facial amarelado margeado por listra negra e asas e cauda com nódoas brancas e íris amarela (Koing, 1999; Sick, 1997). O termo "canela" refere‑se à coloração predominante da espécie, enquanto "caburé" designa um grupo de corujas pequenas.

• Alimentação: Sua alimentação consiste de pequenas aves, insetos, morcegos e roedores (Sick, 1997). Studer & Teixeira (1994) analisaram pelotas regurgitadas próximas aos ninhos, onde constataram a predação de insetos, inclusive coleópters, e crânios do morcego Sturnira lilium, além de ossos de roedores como Oryzomys sp. Morcegos foram capturados junto a esta coruja em redes de neblina, inclusive do gênero Sturnira (Barrionuevo et al. 2008), indicando tentativas de predação.

• Reprodução: Assim como a maioria dos Strigiformes neotropicais, a A. harrisii possui sua biologia reprodutiva pouco conhecida. No Brasil, um ninho foi localizado no oco de uma palmeira morta no mês de março contendo três ovos pesando 12,27 g em média, nidificação que resultou em um filhote (Studer e Teixeira 1994). Na Argentina, a postura de ovos se inicia entre Setembro e Novembro. Ninhos são construidos em cavidades, especialmente de pica-paus, em alturas variadas (Koing & Weick, 2008). Koing (1999) relatou no noroeste da Argentina (Floresta de Misiones), ninhadas de até três filhotes em árvores ocas. Os ocos são ocupados pelos mesmos indivíduos em anos consecutivos, contudo, o período reprodutivo pode ocorrer em épocas distintas. No período reprodutivo em Salta, Argentina, constatou-se a vocalização mais frequente nos meses de Outubro e Novembro (Koing 1999). Segundo Koing (1999) as vocalizações de machos e fêmeas apresentam diferenças, sendo possível a identificação de machos jovens, com características vocais intermediárias. Cinco tipos de sons foram citados, inclusive um sem registro, associado à cópula. Durante a incubação, e pós eclosão, machos raramente cantam ou respondem a playback.

• Distribuição Geográfica e Subspécies: Ocorre na Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela. No Brasil ocorre no Planalto Central (Goiás  e Distrito  Federal); Nordeste (Ceará, Pernambuco, Alagoas); e de São Paulo ao Rio Grande do Sul (Sick, 1997). São conhecidas três subspécies, A. h. harrisii: Venezuela e Bolívia; A. h. ihieringi: norte da Argentina, Paraguai, Uruguai  e Brasil,  entre  os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul; e a subspécie A. h. dabbenei é restrita ao noroeste da Argentina (ICMBIO, 2008).

• Status nas listas vermelhas estaduais:

  Paraná: Dados desconhecidos (Mikich & Bérnils, 2004).
  Rio Grande do Sul: Dados desconhecidos (ICMBio, 2008).
  São Paulo: Dados desconhecidos (Silveira et al., 2009).

• Hábitos/Informações Gerais: Habita florestas, mata  rala  e  cerrado,  geralmente  em altitudes  acima  de  1.600 metros  do nível do mar. Esta ave conta com poucos dados e carece de estudos sobre distribuição, biologia e ecologia. No Estado do Paraná habita preferencialmente os capões de Floresta Ombrófila Mista do Primeiro Planalto Paranaense. Acredita-se que esta coruja seja mais discreta do que rara, por talvez apresentar deslocamentos altitudinais sazonais, ter períodos restritos de atividade, e vocalizar pouco, evitando disputas com espécies mais sedentárias (Girão e Albano, 2010). Já foi registrada nos pampas gaúchos, indicando que a espécie pode utilizar áreas abertas e degradadas (Rebelato et al 2010).

No Brasil, já foram encontrados indivíduos de A. harrisii mortos por atropelamentos em rodovias (Santos, 2009; Rebelato et al 2010). Acredita-se que os casos de atropelamentos de A. harrissi e de outras corujas, acontecem quando elas utilizam a rodovia como área de forrageamento, em razão da disponibilidade de pequenos roedores que ocupam o acostamento da rodovia, em busca de recursos como grãos ou brotos de plantações.

•Áreas de ocorrência recente e Status populacional: No estado do Paraná, os registros dessa espécie concentram-se no terço superior da bacia do rio Iguaçu, nos municípios de Curitiba, São José dos Pinhais e Mandirituba, porém, Raphael E. F. S. (2009) econtrou em dezembro de 2008, um indivíduo morto, vítima de atropelamento, na BR-280, município de General Carneiro, estado do Paraná - BR, próximo à divisa com o município de Palmas. Este registro amplia ao sul e ao oeste a área de distribuição de A. harrisii no Paraná (Santos, 2009). Situação parecida aconteceu no Rio Grande do Sul, Rebelato et al (2010) encontraram em janeiro de 2010 um indivíduo de A. harrisii morto às margens da rodovia BR-290, em São Gabriel, ampliando a oeste a área de distribuição da espécie no Rio Grande do Sul, sendo o segundo registro para o bioma Pampa no país. No Rio Grande do Sul são conhecidos registros históricos em São Lourenço do Sul e para o nordeste do estado (Belton 1994; Paraná, 2009).

Em Santa Catarina, a espécie foi registrada no município de Rio Negrinho (Kaminski, 2009), e no município de Caçador (obs. pes. G. Kohler) sendo estes os únicos registros da coruja em território catarinense. No estado de São Paulo são conhecidas duas peles de museu (MZUSP) uma procedente de Osasco (1959) e outra sem procedência conhecida. Registros recentes da espécie em SP foram realizados no sudeste do estado, no Parque do Zizo, no Parque Estadual Intervales em 2006, e nos municípios de Itararé e Mogi das Cruzes. Há também registros para Goiás e no Distrito Federal (Girão e Albano, 2010). No centro-oeste a caburé-acanelado foi vista na RPPN Sesc Pantanal e em Barão de Melgaço (Antas e Pablo-Jr, 2009). Em Minas Gerais sabe-se da existência de populações no sudeste do Estado (Girão e Albano, 2010). Já no nordeste do Brasil, há registros em Correntina e Camaçari na Bahia e outros registros significativos no Ceará (Girão e Albano, 2010). No estado de Pernambuco e Alagoas existem alguns registros que têm como fonte algumas observações pessoais (Sick, 1985, 1997), mas com validade duvidosa. Entre o nordeste do Brasil e a região sul e sudeste existe uma lacuna enorme de informações a ser preenchida, com os dados existentes não é possível afirmar se há ou não isolamento populacional dos registros do Ceará com os do sul/sudeste do país.

A descaracterização de seu habitat preferencial e o pouco conehcimento acerca de sua biologia dificulta a definição de ameaças e a determinação de medidas efetivas para sua conservação. É de extrema importância desenvolver pesquisas sobre sua distribuição, biologia e ecologia, assegurando-lhe um status adequado de conservação e medidas mais efetivas de conservação (Mikich & Bérnils, 2004).


Caburé-acanelado. Ouro Preto/MG, Jan de 2011.
Foto:
Juliana Oliveira

Caburé-acanelado. Ouro Preto/MG, Jan de 2011.
Foto:
Juliana Oliveira

A. harrisii atropelada na BR-280 no Paraná, bem próximo à divisa com Santa Catarina.
Dezembro de 2008. Foto:
Raphael E. F. Santos

Provável distribuição do caburé-acanelado no Brasil, e áreas com registros documentados.
Arte:
Willian Menq


:: Página editada por: Willian Menq em 2011. ::



Contato



• Referências:

Antas, P. t. Z. e Palo Jr., h. (2009). Guia de Aves: Espécies da Reserva Particular do Patrimônio Natural do SESC Pantanal. Rio de Janeiro: SESC Nacional.

Barrionuevo, C.; Ortiz, d. e Capllonch, P. (2008). Nuevas localidades de la lechucita canela (Aegolius harrisii dabbenei) (Strigidae) para la Argentina. Nuestras Aves, 53:45-47.

Belton W. (1994). Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia. Tradução de Teresinha Tesche Roberts. São Leopoldo: Ed. Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Ferguson-Lees, J., and D.A. Christie. (2001). Raptors of the world. Houghton Mifflin, Boston, MA.

Girão, W. & Albano, C. (2010). Sinopse da história, taxonomia, distribuição e biologia do caboré Aegolius harrisii (Cassin, 1849). Revista Brasileira de Ornitologia, 18 (2):102-109.

ICMBIO, (2008). Plano de ação nacional para a conservação de aves de rapina / Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Coordenação-Geral de Espécies Ameaçadas. – Brasília: 136 p. ; il. color. : 29 cm. (Série Espécies Ameaçadas, 5).

Kaminski, N. (2009). Primeiro registro documentado de Aegolius harrisii para o Estado de Santa Catarina, Brasil. Cotinga, 31:79.

Konig, Claus & Weick, (2008) Friedhelm - “Owls of the World”, 2a edição - 2008 - Christopher Helm - Londres - páginas 447 e 448

König, C. (1999). Zur Ökologie und zum Lautinventar des Blaßstirnkauzes Aegolius harrisii (CASSIN 1849) in
Nordargentinien. Ornithologische Mitteilungen, 51(4):127‑138.

Mikich, S.B. & R.S. Bérnils. (2004). Livro Vermelho da Fauna Ameaçada no Estado do Paraná. Disponível em: > http://www.pr.gov.br/iap. Acessado em: 31 mar 2010.

Menq, S. (2011) Aves de Rapina Brasil - Espécies Fantasmas. Disponível em: < http://www.avesderapinabrasil.com/materias/especies_fantasmas.htm > Acesso em: Setembro de 2011.

Paraná, Instituto Ambiental do. (2009) Planos de Conservação para Espécies de Aves Ameaçadas no Paraná. IAP/Projeto Paraná Biodiversidade, 279 p.

Rebelato, M. M.; Cunha, G. G.; Machado, R. F.; Hartmann, P. A. (2010). Novo registro do caburé-acanelado (Aegolius harrisii) no Bioma Pampa, sul do Brasil. Biotemas, 24 (1): 105-107.

Santos, R. E. F. (2009). Ampliação da distribuição de Aegolius harrisii a partir de coleta por atropelamento. Atualidades Ornitológicas On-line Nº 147 - Janeiro/Fevereiro 2009 - www.ao.com.br.

Sick, H. (1997). Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro. Ed. Nova Fronteira.

Silveira, L.F.; BENEDICTO, G.A.; SCHUNCK, F. & SUGIEDA, A.M. (2009). Aves. In: Bressan, P.M.; Kierulff, M.C. & Sugieda, A.M. (Orgs), Fauna ameaçada de extinção no Estado de São Paulo: Vertebrados. São Paulo, Fundação Parque Zoológico de São Paulo e Secretaria do Meio Ambiente.

Studer, A. & Teixeira, d. M. (1994). Notes on the Buff‑fronted o Aegolius harrisii in Brazil. Bull. Brit. Orn. Cl., 114(1):62‑63.