Aves de rapina: Morfologia e Adaptações para caça

Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus). Foto: Aldo Fabrício S. M.
Texto de: Willian Menq 
As aves de rapina, por serem predadoras, necessitam de diversas adaptações para a caça ativa, como visão e audição apuradas, garras e bicos fortes e afiados, etc. É um grupo que apresenta grande diversidade morfológica variando desde o pequeno gaviãozinho (Gampsonyx swainsonii), que tem o tamanho de um sabiá, até o gavião-real (Harpia harpyja), que apresenta envergadura de asa de um pouco mais de 2 metros e fêmeas que ultrapassam os 9 kg. Os urubus (Cathartiformes) apresentam uma morfologia e comportamento de forrageio diferente das aves de rapina, sendo eles carniceiros. Uma característica marcante dos urubus é a cabeça e o pescoço nus, que dificulta o acúmulo de restos alimentares nas penas durante a alimentação.
O dimorfismo sexual é predominantemente relacionado ao tamanho (com fêmeas maiores), sendo bastante pronunciado em espécies do gênero Accipiter e Harpia, mas pode ser reconhecido através do peso nas outras espécies. A diferença de coloração entre os sexos ocorre apenas em algumas espécies como Circus buffoni, e Falco sparverius.
• Visão
A visão binocular das aves de rapina é resultado de uma adaptação a localização de sua presa, dando noção de distância e profundidade. A visão dessas aves é incrível, muitas detectam suas presas a grandes distancias. A águia-real (Aquila chrysaetos), por exemplo, consegue ver uma lebre a mais de 3 km de distância. As aves de rapina possuem olhos proporcionalmente grandes em relação à cabeça, com milhares de células da retina (cones e bastonetes). Assim como em outras aves, elas possuem nos olhos uma membrana fina chamada de membrana nictitante, cuja finalidade é limpar e proteger os olhos de poeiras, ciscos, etc. As corujas, como são em grande maioria noturnas, possuem adaptações morfológicas adicionais para caçar em ambientes com ausência de luz. Os olhos das corujas, assim como de outros animais noturnos, possuem uma camada de células atrás da retina chamada tapetum, que reflete a luz sobre os bastonetes, imprimindo uma segunda vez a mesma imagem e possibilitando melhor captação de luz. Como resultado, as corujas possuem uma visão noturna excelente, enxergando de 10 a 100 vezes mais que os humanos. Os olhos das corujas são muito grandes, praticamente imóveis dentro de seu crânio, campo visual limitado na qual é compensada com a excelente capacidade de girar a cabeça a 270º graus devido ao número maior de vértebras cervicais em relação a outros vertebrados (duas vezes mais que na espécie humana).

(B) Membrana nictitante da Harpia. Foto: Willian Menq |

Esquema da visão binocular das aves de rapina |
• Audição
A audição do grupo é bem desenvolvida, os ouvidos estão localizados em cada lado do crânio, próximo aos olhos. Nas corujas a audição é apuradíssima, elas possuem grandes discos faciais que auxilia no direcionamento do som e seu crânio possui uma grande abertura dos ouvidos, com isso conseguem detectar facilmente um roedor caminhando entre as folhagens na mais completa escuridão. Segundo observações cuidadosas de comportamento, indicaram que as corujas usam dois tipos de informações em sua resposta de orientação auditiva: a intensidade do som e o tempo de chega do som em cada ouvido. A intensidade do som é usada pelas corujas para determinar a elevação do alvo, e o tempo de chegada do ruído nos ouvidos é usado para determinar a azimute do alvo (desvio lateral de um ponto diretamente em frente da cabeça da coruja). As corujas conseguem discriminar a elevação de uma fonte sonora graças a seus discos faciais, região ao redor das aberturas dos ouvidos, formada por penas rígidas. Os discos faciais dirigem eficientemente os sons para dentro do canal auditivo como o pavilhão auditivo da orelha dos mamíferos. Nos gaviões a abertura dos ouvidos é posicionada simetricamente em cada lado da cabeça, já as corujas possuem uma simetria bem pronunciada, a abertura da direita está dirigida para cima, enquanto que a abertura esquerda está dirigida para baixo. Este arranjo pode fornecer a base para a discriminação da elevação através das informações de intensidade. Os discos faciais em aves de rapina diurnas como dos Micrastur sp, Circus sp e Harpia harpyja provavelmente colabora na detecção de presas, de forma semelhante às corujas.

Face da coruja-preta, os discos faciais auxiliam na detecção de sons. Foto: Beto Vieira |

Esquema do crânio de uma coruja, com destaque a simetria da abertura dos ouvidos. |
• Olfato
As aves possuem um olfato pouco desenvolvido, são mais dependentes da visão e da audição para encontrar alimento e evitar perigo. Mas há uma exceção, o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura). Este urubu possui o olfato muito aguçado, é capaz de detectar a grandes distâncias o cheiro de animais mortos. Graças à sua capacidade de vôo e sensibilidade do olfato, costuma ser o primeiro urubu a chegar na carniça.
• Garras e tarsos
As corujas, gaviões, águias e falcões usam as garras para caçar ativamente, com força e eficiência bastante diversificadas dentro dos grupos. O tamanho das garras depende do tipo de presa que a ave costuma agarrar, águias de grande porte possuem tarsos grossos e garras grandes, pois capturam animais como macacos, preguiças e mamíferos terrestres; espécies pescadoras como a Pandion haliaetus possuem calos ásperos nos dedos, o que as ajuda a segurar peixes escorregadios. Espécies menores têm garras pequenas, porém mais afiadas. O gavião-pernilongo Geranospizia caerulensis possui pernas bem longas e uma articulação intertarsal mais móvel, capaz até de se dobrar para trás, sendo especializado na exploração de cavidades. As corujas possuem seus tarsos emplumados para diminuir o ruído nas caçadas, e o dedo externo (nº4) pode virar voluntariamente para trás reforçando o hálux para segurar a presa além de aumentar a superfície de contato para captura da mesma. O bico e os pés de Daptrius, Ibycter, Milvago e Polyborus são relativamente fracos quando comparados a outros rapineiros. As patas e as garras dos urubus não são tão fortes como a das aves de rapina, não tendo a função de matar ou transportar presas.

O tipo das garras depende do tipo de presa que a ave costuma caçar.
• Bico
O bico curvo, forte e afiado está relacionado ao ato de dilacerar a pele de suas vítimas, como por exemplo, mamíferos, lagartos, cobras, etc., alguns falcões costumam usar o bico para matar suas presas. Falcões pequenos como o quiriquiri (Falco sparverius) têm bico curto, adequado para comer insetos e pequenos vertebrados. Grandes águias como a Harpia, possuem bico pesado e extremamente forte, para arrancar grandes nacos de carne de suas presas. O gavião-caramujeiro (Rostrhamus sociabilis) é um especialista em caramujos, e devido a esse hábito alimentar, apresenta bico longo, muito fino e curvado, o que permite atingir o interior das conchas de caramujos. O bico de espécies como as dos gêneros Falco e Harpagus apresenta estruturas similares a dentes que facilitam a dilaceração de presas.
• Penas e o Voo
As penas são constituídas de queratina, o mesmo material de que são formadas as unhas nos mamíferos. Os zoólogos dividem as penas da asa das aves em vários grupos. Cada grupo de penas desempenha uma função importante. As penas de cobertura (coberteiras) tornam a asa mais grossa na frente e o ar frui mais rápido por cima, essas penas tem a função de diminuir a aderência da ave com o vento. As penas de baixo ou “penugem’ são penas macias localizadas perto do corpo, elas ficam por baixo das penas de contorno e tem função de manter a ave aquecida. As penas de voo, como o nome diz, auxilia no voo da ave, as penas da ponta das asas (as primárias) podem se abrir ou fechar para aumentar ou diminuir a resistência. As penas secundárias se movem para baixo aumentando a resistência, ou para cima, reduzindo-a.
As penas de voo e contorno das aves de rapina têm uma grande resistência, elas se prendem umas às outras por mais de 350.000 ganchos minúsculos, chamados de bárbulas. As partes da pena que se prendem se chamam bárbulas inclinadas. Quando as penas estão desalinhadas, a ave umedece o bico numa glândula situada acima da cauda, onde há óleo, e lubrifica as bárbulas, colocando-as no lugar. Esse mesmo óleo ajuda a evitar que as penas se encharquem na chuva. O processo de organização das penas é chamado de “preening”. As corujas apresentam uma plumagem mais macia, a estrutura das rêmiges é menos rígida o que possibilita um vôo silencioso, que não interfere na orientação acústica durante a caça e não permite a detecção do predador pela presa.
A variação no formato das asas é, geralmente, relacionada ao habitat e ao tipo de vôo predominante. Espécies que vivem em ambientes abertos como os gaviões do gênero Buteo, por exemplo, possuem asas longas e amplas e caudas de tamanho médio, morfologia ideal para planar por várias horas gastando o mínimo de energia. Espécies florestais como as águias-florestais (Morphnus, Harpia, Spizaetus), Micrastur sp e Accipiter sp, possuem asas curtas porém largas e caudas relativamente grande, aerodinâmica especializada em vôo ágil e boa manobridade entre às árvores na floresta. Os Falcões (Falco) são menores e sua aerodinâmica é especializada a vôos de altas velocidades e para execução de manobras rápidas, para isso possuem asas longas afiladas e cauda curta (parecendo um Bumerangue).

Detalhe da pena de voo de uma coruja, é possivel observar as extremidades serrilhadas, modificação que garante um voo silencioso. |

O formato das asas geralmente está relacionado ao habitat, modo de caça e forrageio e ao tipo de vôo predominante da espécie. |
• Esqueleto e Músculos
Todas as aves possuem ossos pneumáticos, ou seja, ossos ocos que as tornam mais leves ajudando no voo. Em algumas partes internas os ossos possuem nervuras para torná-los mais fortes. Os principais músculos do voo estão ligados ao grande osso peitoral. Esses músculos peitorais nas aves de rapina representam grande parte da massa corpórea da ave (correspondem quase a metade do peso da ave), os músculos que impelem as asas para baixo são muito maiores que os músculos do que os que movimentam as asas para cima isso porque eles precisam de mais força para comprimir as asas para baixo, movimento que vai contra a gravidade e o vento (movimento submetido a uma pressão maior).

Bibliografias consultadas:
Boyer and Hume. 1991. "Owls of the World". BookSales Inc.
Brown L. e Amadon, d. (1989). Eagles, hawks and falcons of the world, v. 1. Secaucus: The Wellfleet Press.
Eckert, Roger; Randall, David J.; Burgeen, Warren W.; French Kathleen. Fisiologia animal: mecanismos e adaptações. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. 729 p. ISBN 852770594X (enc.)
Fegurson-Lees, J.; Christie, D. A. 2001. Raptors of the world. Houghton Mifflin Company, New York, USA, 992pp.
ICMBio (2008). Plano de ação nacional para a conservação de aves de rapina / Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Coordenação-Geral de Espécies Ameaçadas. – Brasília.
Sick, H. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro:
Ed. Nova Fronteira, 862p. 1997.